Uma Abordagem Psicológica Sobre o Medo

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Resumo: Este artigo visa contribuir para análise e discussão acerca do tema medo, assim como dos aspectos psicológicos envolvidos neste contexto e suas representações no cotidiano. A partir de uma revisão bibliográfica faz-se uma sucinta explanação dos conceitos, tipos de medos e fobias. Abordando também alguns costumes e crendices da cultura popular sobre o medo. Enfatizar-se-á as percepções da psicologia com uma abordagem psicanalítica sobre a construção destes medos e/ou fobias presentes em muitos dos indivíduos que buscam os serviços de psicólogos e psicanalistas. Com base no que fora levantado, muitos dos medos e fobias vivenciados por indivíduos, sejam eles de qualquer faixa etária, estão associados à passagem do Complexo de Édipo e o processo de castração.

Palavras-chave: medo, fobia, angústia, complexo de Édipo, castração.

1. Introdução

Este artigo aborda sucintamente a temática sobre o medo, suas implicações e consequências psíquicas no cotidiano das pessoas, assim como as fantasias que emergem nessas vivências.

Falar sobre medo é algo muito complexo, tendo em vista a singularidade do ser humano e a infinidade de fatores psicológicos capazes de desencadeá-lo.

A relevância deste artigo se dá pelo fato de abranger um tema que emerge em rodas de conversa, em todas as faixas etárias e pode, de certa forma, implicar negativamente no convívio social. O medo que apavora, paralisa, impede e angustia, que muitas das vezes se apresenta como queixa nos consultórios de psicólogos e psicanalistas.

Medo de dirigir, medo de morrer, medo de baratas, medo de assombração, medo de envelhecer, etc. São tantos que elencá-los seria impossível.

São vários e inusitados, declarados e ocultos, existem e estão cada vez mais sendo abordados em estudos e pesquisas.

Abordar-se-á ao longo deste artigo algumas crendices que compõem o cotidiano das pessoas, como assombrações, canções de ninar que despertam o medo, o bicho papão, etc., e as implicações psicológicas neste contexto.

Com base nesta vertente buscou-se em acervos bibliográficos e artigos científicos publicados, dados que venham corroborar e enriquecer os estudos sobre esta temática.

Enfatizar-se-á, também, a visão psicológica com uma abordagem psicanalítica sobre questões inconscientes que desencadeiam sinais e sintomas do medo e da fobia, do simples ao patológico.

2. Medo e Suas Definições

Aquele que não tem medo, mesmo que lá no íntimo, atire a primeira pedra! Esta afirmativa se dá por sermos seres humanos, passíveis desses sentimentos e emoções, existe uma infinidade de fatores desencadeantes do medo, que podem acometer pessoas em todas as faixas etárias, podem ser passageiros, assim como tornar-se psicopatológicos.

O que é medo? Quais os sinais e sintomas do medo? O medo é patológico? O medo significa a mesma coisa que fobia? O que pode estar por detrás das fobias? Partindo deste princípio, o medo é “caracterizado por referir-se a um objeto mais ou menos preciso” (DALGALARRONDO, 2006, p. 107).

Segundo Dalgalarrondo (2006) apud Mira y López (1964), o medo se apresenta em escalas até a sua inativação, ou seja, ele vai paulatinamente tomando uma proporção até que o indivíduo tenha seus sentimentos e emoções estabilizados, dividindo-se em seis fases de acordo com o grau de extensão e imensidão, são eles: 1. Prudência; 2. Cautela; 3. Alarme; 4. Ansiedade; 5. Pânico (medo intenso); 6. Terror (medo intensíssimo).

O medo é uma alteração das emoções e dos sentimentos, também é fundamental para a nossa autopreservação. Já imaginou se não o tivéssemos? O que seríamos capazes de fazer? Atravessar uma rua sem temer a um possível acidente, pôr em risco a própria vida.

Segundo Dalgalarrondo (2006),

O medo não é uma emoção patológica, mas algo universal dos animais superiores e do homem. O medo é um estado de progressiva insegurança e angústia, de impotência e invalidez crescentes, ante a impressão iminente de que sucederá algo que queríamos evitar e que progressivamente nos consideramos menos capazes de fazer. (DALGALARRONDO, 2006, p. 109)

3. Fobias

No que tange às fobias, pode-se dizer que são medos exacerbados, desproporcionais, limitantes e psicopatológicos. Um dos sinais é a própria esquiva do objeto fobígeno, o indivíduo evita falar e se aproximar, até mesmo mudar a rotina por conta desse medo, podendo ter sua vida pessoal e social comprometida e ameaçada, passando a sofrer por isso. O que pode ser corroborado por Dalgalarrondo (2006) quando diz que:

São medos determinados psicopatologicamente, desproporcionais e incompatíveis com as possibilidades de perigo real oferecidas pelos desencadeantes, chamados de objetos ou situações fobígenas. Assim o indivíduo tem um medo terrível e desproporcional de entrar em um elevador, ou de gatos, ou de contato com pessoas desconhecidas. No indivíduo fóbico o contato com os objetos ou situações fobígenas desencadeia, muito frequentemente uma intensa crise de ansiedade. (DALGALARRONDO, 2006, p. 109)

O indivíduo fóbico vivencia além da angústia e da vergonha, sintomas observáveis, uma série de reações corporais, alterações somáticas causadas pelo estado de exposição ao objeto fobígeno, que fora corroborado por Delumeau (1989),

Colocado em estado de alerta, o hipotálamo reage por uma mobilização global do organismo, que desencadeia diversos tipos de comportamentos somáticos e provoca, sobretudo, modificações endócrinas. Como toda emoção, o medo pode provocar efeitos contrastados segundo os indivíduos e as circunstâncias, o até reações alteradas em uma mesma pessoa: a aceleração dos movimentos do coração ou sua diminuição; uma respiração demasiadamente rápida ou lenta; uma contração ou uma dilatação dos vasos sanguíneos; uma hiper ou uma hipo-secreção das glândulas; constipação ou diarréia, poliúra ou anúria, um comportamento de imobilização ou uma exteriorização violenta. Nos casos-limite, a inibição era até uma pseudoparalisia diante do perigo (estado cataléptico) e a exteriorização resultará numa tempestade de movimentos desatinados e inadaptados, característicos do pânico. (DELUMEAU, 1989, p. 23)

Dentro da Classificação de Transtornos Mentais e de Comportamento da CID-10 (Classificação Internacional de Doenças), as fobias estão na classe de transtornos neuróticos, estresse e somatoformes, grupo F40 – F48, que compreende os Transtornos fóbicos ansiosos (F40).

Elencando-os com base na CID 10 (2007), encontram-se:

Agorafobia (F40.0) medo de sair de casa, de entrar em lojas, multidões e lugares públicos ou de viajar sozinho em ônibus, trens e aviões. “Representa um dos mais incapacitantes transtornos fóbicos e alguns pacientes tornam-se confinados ao lar, são aterrorizados pelo pensamento de terem um colapso e serem deixados sem socorro ao público”. (CLASSIFICAÇÃO DE TRANSTORNOS MENTAIS E DE COMPORTAMENTO CID 10, 2007, p. 133).

Fobias sociais (F40.1) medo de expor-se a outras pessoas em grupos, levando a evitação de situações sociais. (CLASSIFICAÇÃO DE TRANSTORNOS MENTAIS E DE COMPORTAMENTO CID 10, 2007, p. 135)

Fobias específicas (F40.2) medo de aproximar-se de determinados animais ou situações como por exemplo: medo de altura, baratas, trovão, escuridão, visão de sangue, exposição à doenças específicas. (CLASSIFICAÇÃO DE TRANSTORNOS MENTAIS E DE COMPORTAMENTO CID 10, 2007, p. 135)

Transtorno de pânico (F41.0) ataques recorrentes de ansiedade grave (pânico), os quais não estão restritos a qualquer situação ou conjunto de circunstâncias em particular e que são, portanto, imprevisíveis. (CLASSIFICAÇÃO DE TRANSTORNOS MENTAIS E DE COMPORTAMENTO CID 10, 2007, p. 137)

Pode-se exemplificar que dentre todos os tipos e subtipos de fobias, o medo de barata, o medo de fantasma, o medo de gatos são fobias simples; o medo de multidões e aglomerações é denominado de agorafobia; o indivíduo quando tem medo de expor-se em público, tem fobia social; pessoas que têm medo de elevadores e espaços fechados sofrem de claustrofobia e que as crises de ansiedade e medo intenso de morrer, são chamadas de crise de pânico.

Como fora citado por Dalgalarrondo (2007),

[…] A fobia simples é o medo intenso e desproporcional de determinados objetos, em geral pequenos animais (barata, sapo, cachorro, etc.) A fobia social é o medo de contato e interação social, principalmente com pessoas pouco familiares ao indivíduo e em situações nas quais o paciente possa se sentir examinado ou criticado por tais pessoas (proferir aulas ou conferências, ir a festas, encontros, etc.) A agorafobia é o medo de espaços amplos e de aglomerações, como estádios, cinemas, supermercados. Inclui-se na agorafobia o medo de ficar retido em congestionamentos. A claustrofobia é o medo de entrar (e ficar preso) em espaços fechados, como elevadores, salas pequenas, túneis, etc. […] Pânico é uma reação de medo intenso, de pavor, relacionada geralmente ao perigo imaginário de morte iminente, descontrole ou desintegração, […] são crises agudas e intensas de ansiedade, acompanhadas por medo intenso de morrer ou perder o controle e de acentuada descarga autonômica (taquicardia, sudorese, etc.) (DALGALARRONDO, 2006, p. 110)

4. Medos e Crendices

Quem nunca foi embalado quando pequeno? Ou nunca embalou ninguém com canções de ninar, como: boi…boi…boi…boi da cara preta…pega essa menina…que tem medo de careta; nana neném…que a cuca vem pegar…papai foi para roça…mamãe foi trabalhar…

Segundo Almeida (1926),

O acalanto, canção ingênua, sobre uma melodia muito simples, com que as mães ninam seus filhos, é uma das formas mais rudimentares do canto, não raro com uma letra onomatopaica, de forma a favorecer a necessária monotonia, que leva a criança a adormecer. Forma muito primitiva, existe em toda a parte e existiu em todos os tempos, sempre cheia de ternura, povoada às vezes de espectros de terror, que os nossos meninos devem afugentar dormindo. Vieram as nossas de Portugal, na sua maior parte, e vão passando por todos os berços do Brasil e vivem em perpétua tradição, de boca em boca, longe das influências que alteram os demais cantos. (ALMEIDA, 1926, p. 106)

Que criança dormiria tranquila com uma canção dessas? Bem, se formos analisá-las, assim como associá-las aos medos comuns de algumas crianças, podemos levantar a hipótese de que alguns pais, na tentativa de disciplinar seus filhos, podem estar incutindo em seus inconscientes medos imaginários, que poderão ou não se apresentar em outras fases do desenvolvimento de acordo com a estruturação de suas personalidades.

Lopes e Paulino (2010) apud Melo (1985) “a visão que se guarda da infância desses ‘perseguidores’ é realmente profunda e aterradora e que teria a função de amansar os rebeldes, embora possa ser contraproducente para a educação, produzindo um pavor estúpido.”

Elias (1994) diz que “os pensamentos fantasiosos […] ajudam-nas a aliviar uma situação de outro modo insuportável, na qual se encontram inteiramente expostas, como crianças pequenas, a forças misteriosas e incontroláveis.”

É comum que as sociedades venham ao longo dos tempos guardando tradições e costumes voltados para as lendas, mitos e personagens fantasmagóricos que compõem os contos e as cantigas de ninar, tendo como intento amedrontar e assegurar-se, mesmo que de forma sutil, que a criança não fará nenhuma traquinagem, temendo que os possíveis monstros venham castigar-lhes.

No artigo Histórias de assombração: quem tem medo de quê? De Pauli, Silva & Branco, extraído da Revista Eletrônica de Educação, reforça o parágrafo acima quando diz que:

Cada cultura possui seus medos e ferramentas próprias para se defender deles e seria também na infância que os medos sofrem processo de intensificação pela sociedade. As famílias ou sociedades criam dispositivos de amedrontamento de suas crianças: lobisomem, bicho-papão, homem do saco, monstros, bruxas, boi-da-cara-preta, mulas sem cabeça, saci, etc. […] trata-se de dispositivos de segurança e de doutrinamento. (PAULI et al 2007)

Ainda abordando o objeto assombração, medo muito comum em nossa sociedade, faz- se referência a Carl Jung [2] em uma de suas experiências. O texto relatado abaixo resume trechos do livro “Diálogo com Outros Mundos” de Gruber e Fiebag.

Dedicou parte de seu tempo ao estudo da Parapsicologia. Conhecia muito sobre espiritismo, haja vista que sua família materna era voltada para esta vertente. Sua avó era vidente e sua mãe muito aberta a fenômenos paranormais.

Esta experiência se passou em uma casa na Inglaterra, a qual Jung e seu amigo haviam alugado, nela vivenciaram vários eventos dentre eles cita-se:

Em 1919, C. G. Jung fez uma exposição sobre os fundamentos psicológicos da crença em espíritos perante a Sociedade para a Investigação Mediúnica, na qual analisou os fenômenos paranormais de um ponto de vista psicológico, classificando-os de complexos autônomos inconscientes deslocados para o exterior. No ano seguinte, entrou ele próprio em contato com semelhantes fenômenos na Inglaterra. Jung tinha às vezes a possibilidade de passar o fim de semana numa casa de campo que um amigo alugara pouco antes. De noite ouvia pancadas nas paredes e barulhos curiosos e espalhava-se no ar um mau cheiro estranho. Os acontecimentos, que provocavam nele uma espécie de paralisia, atingiram o seu ponto mais alto quando uma noite viu aproximar-se metade de uma cabeça feminina, que pousou na almofada a menos de meio metro de distância dele. O único olho da cabeça estava aberto e fitava o assustado médico. Jung acendeu uma vela e a assombração desapareceu. Ele passou o resto da noite sentado na cadeira. Depois, Jung e o amigo souberam o que toda a aldeia já sabia: tratava-se de uma casa assombrada, na qual os inquilinos ficavam sempre por pouco tempo. O psicólogo Jung interpretou as assombrações como projeções de conteúdo psíquico inconsciente, mas não conseguiu encontrar nenhuma explicação satisfatória para o fato de elas se produzirem apenas naquela casa e de o deixarem em paz em Londres durante o resto da semana.”

Segundo Grosso em seu artigo “Medo da Vida depois da Morte”, ao fazer referência ao trabalho de J. Frazer (1913), numa coletânea de relatos de antropólogos e missionários sobre o medo primordial dos mortos, cita que: “na Melanésia, Polinésia, Nova Guiné, Índia, Ásia, África e nas Américas do Sul e do Norte, os povos tribais acreditam que os espíritos dos mortos são capazes de infligir todo tipo de danos aos vivos, sendo os parentes próximos considerados mais letais”.

Relatos como esse, arraigados nas crendices da sociedade, dentre todos, um dos mais corriqueiros – o medo de assombração. Pessoas que vivenciam experiências extracorpóreas, que veem seus parentes já falecidos, ou até mesmo pessoas que nunca viram, tendem a temer. Espíritos? Assombrações? Crendices populares?

Como diz a celebre frase de Shakespeare: “Há mais mistérios entre o céu e a terra, do que sonha a nossa vã filosofia”.

5. Uma Visão Psicanalítica sobre o Medo e a Fobia

O medo tem vários conceitos, alarme, acovardamento, ansiedade, angústia, apavoramento, desassossego, enlouquecimento, etc., para Freud o termo utilizado é angústia (angust), e além do sofrimento psíquico o indivíduo fóbico vivencia o sofrimento físico, o que fora corroborado por Vanier (2006),

A angústia tem com o nosso corpo a mais estreita vinculação, como nos é mostrado pela etimologia (do latim angustia): designa um mal-estar psíquico, mas também físico – sensação de aperto na região epigástrica, de bolo na garganta, com palpitações, palidez, impressão de que as pernas vacilam, dificuldade para respirar, em suma, a angústia afeta o corpo. (VANIER, 2006, p 286)

Com base nos estudos de Freud o medo se dá através da exposição do indivíduo ao objeto fobígeno, a angústia é um estado de expectativa de um perigo ignorado e o terror é quando o indivíduo vivencia uma situação inesperada de perigo. O que é explicado por Abla (2009), ao citar Freud:

Para Freud, o termo medo requer um objeto determinado, em presença do qual algo se sente. A angústia, ele esclarece, designa certo estado de expectativa frente ao perigo e preparação para ele, ainda que se trate de um perigo desconhecido. Freud chama terror o estado em que o sujeito cai quando corre perigo sem estar preparado, com destaque ao fator surpresa. (ABLA, 2009, p. 155)

São muitos os clientes que buscam os serviços de psicólogos e psicanalistas em busca de curar-se do medo que de certa forma os incapacita. “Medo e angústia caracterizam um tempo subjetivo que leva o paciente à busca de um saber que o livre do medo e alivie do mal- estar”. (Abla, 2009, p. 156)

O medo de alguma forma está associado a um estado de angústia, angústia que castra, tolhe, inibe e reprime, algo que vai muito além do compreendido e manifesto. É na Teoria de Freud sobre o Complexo de Édipo e a angústia de castração que se encontra embasamento necessário para dirimir as dúvidas quanto à temática sobre o medo e a fobia.

O indivíduo fóbico inconsciente tem no objeto fobígeno uma atenção desviada, mascarada, deslocada do real sentimento de angústia que o move, “a representação é recalcada no inconsciente, e o afeto é deslocado, destacado dessa representação à qual estava ligado.” (Vanier, 2006, p. 287)

Explicando como funcionam os conteúdos no inconsciente durante o processo da angústia de castração vivenciada no complexo edípico pode-se dizer que:

Trata-se daquilo que se apodera do menininho diante do amor que sente por sua mãe. Ainda que apareça como perigo interno, esse amor remete a um perigo externo que é o temor imaginário da castração. Não é tanto que a castração possa efetivamente ser praticada, Freud escreve, mas “esse é um perigo que ameaça do exterior, e a criança acredita nele”. Essa crença é determinante. Para as meninas, Freud prossegue, trata-se da angústia ante a perda do amor, “visivelmente um prolongamento da angústia do lactente quando experiencia a ausência da mãe”; remete a uma angústia originária, a angústia do nascimento, que já significa separação da mãe. (VANIER, 2006, p. 287)

A castração é uma função simbólica que necessita da intervenção de um pai real num momento preciso de estruturação do sujeito”. (Vidal, 1999, p. 218)

A fobia manifesta ao mesmo tempo uma realização e um fracasso; de certo modo a operação edipiana erra o alvo, uma vez que ao mesmo tempo manifesta e disfarça uma falha na separação”. (Vanier, 2006, p. 291)

A relação com a imagem paterna de alguma forma representa parte na produção da fobia, a ausência do pai mesmo que simbólica pode desencadear esse tipo de emoção. Como pode ser corroborado por Vanier (2006) apud Maupassant (1884/1979) ao citar que:

Há algum tempo o tema do declínio do pai, do enfraquecimento de sua função, tem tomado ares de banalidade […] nossa época mostra um enfraquecimento de uma dimensão imaginária do pai […] as inevitáveis fobias que balizam e escandem o desenvolvimento da criança manifestam isso. Quer se trate do medo da escuridão, do lobo, etc., essas fobias aparecem em idades determinadas: por volta de 3 a 5 anos, e a fobia de Hans provavelmente é uma dessas; depois por volta de 8-9 anos, quando a criança apreende que pode perder ou ser perdida por seus pais, que são mortais. É por isso que se pode dizer, ante essa incompletude, “só temos medo verdadeiramente daquilo que não podemos compreender”. (VANIER, 2006, p. 291)

O medo e/ou a fobia representa um objeto real, forma esta que o inconsciente tem de sinalizar conteúdos mal resolvidos ou recalcados, lacunas na fase fálica compreendida no processo do Complexo de Édipo. Assim “é através de uma crise subjetiva que tem lugar o aparecimento do medo e o objeto que porta este significante está referido a alguma coisa […] real, que funciona com as características de um sinal de alarme.” (Abla, 2009, p. 157)

A relação com a figura paterna ideal, figura protetora, é que direciona a criança durante a fase fálica, período que compreende a idade de três anos e se estende até os cinco anos, podendo ser fundamental no processo de proteção contra o medo e o desenvolvimento das neuroses. “O pai, ou sua figura, protege do medo […] se faz à custa de uma regressão que mantém o sujeito em determinada posição, aquela que Freud qualificava como infantil, mas que pode tomar corpo e constituir uma proteção eficaz contra a neurose”. (Vanier, 2006, p. 294)

6. Considerações Finais

O medo está associado de alguma forma ao sofrimento e à angústia. É até hoje um sentimento comum a todo indivíduo. Tem suas representações e significados singulares e representa parte significativa das queixas em consultórios de psicólogos, psicanalistas e psiquiatras.

São várias as formas de fobia, dentre elas as mais comuns são: as simples e específicas, como medo de elevador, baratas, assombração, síndrome do pânico e etc.

Além do sofrimento psíquico vivenciado pelo indivíduo fóbico, junto com o medo e a fobia, vem o sofrimento físico, as reações orgânicas e fisiológicas alteradas por conta de um estado de forte emoção e angústia.

Iniciar um processo de análise e terapia para curar-se de medos incapacitantes demonstra ser a melhor alternativa para o equilíbrio da saúde física e mental. O medo e a fobia podem comprometer a capacidade de independência e autonomia do indivíduo que vivencia este estado.

No que tange às crendices populares sobre a temática do medo, temos a exemplo, inúmeras cantigas de ninar que fazem referência ao medo, ao amedrontar para conter, controlar, “educar”, como fora levantado em algumas obras lidas. Todas elas trazem conteúdos capazes de introjetar no inconsciente da criança, dependendo da fase de desenvolvimento humano, personagens monstruosos que farão ou não, parte do cotidiano das mesmas ao longo do processo de crescimento e amadurecimento até a fase adulta.

Vale ressaltar a necessidade de se rever alguns conceitos sobre o educar sem incutir o medo imaginário, assim como produzir cantigas e brincadeiras construtivas e educativas capazes de desenvolver criatividade e raciocínio.

Com base no que fora levantado para a produção deste artigo, compreende-se que, estes estados fóbicos capazes até mesmo de incapacitar um indivíduo, têm suas raízes muito mais profundas, além do que está manifesto.

Portanto, é na teoria de Freud sobre o Complexo de Édipo e no processo de castração, que se encontram respostas para dirimir dúvidas sobre a construção das neuroses e a forma de externá-las através das fobias.

Na fase fálica, que compreende a idade de três a cinco anos, período do desenvolvimento do complexo de Édipo, de introjeção de valores, respeito e moral. Nele, tanto para meninos quanto para meninas, o objeto de prazer é a mãe, que passa a ter seu amor

disputado entre o filho (a) e o pai. O pai representa a figura real, capaz de castrar para demonstrar seu poder, e o filho temendo esta castração, cede espaço ao sentimento de admiração pela mãe, deixando de lado o amor e o desejo.

É nesta fase que a presença do pai se faz fundamental na estruturação da personalidade da criança; e na ausência real deste pai que a protege, é iniciada a construção dos medos e das neuroses.

O medo e a fobia são formas de denunciar as lacunas na passagem do Complexo de Édipo durante o processo de castração. Mascarando o real sentimento de angústia latente, criando um objeto externo para descarregar seus conteúdos, mantendo o objeto real interno, rechaçado no inconsciente.


Fonte: https://psicologado.com/atuacao/psicologia-clinica/uma-abordagem-psicologica-sobre-o-medo © Psicologado.com

FREUD E JUNG SE ENCONTRAM

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Antes do encontro mais marcado da história da psicanálise entre Freud e Jung em 1907, os dois já trocavam cartas discutindo assuntos pertinentes à nova ciência do inconsciente e as condições de Jung chegar até Viena, mês e data.

            Jung ao fazer sua tese de doutorado cita a segunda obra de Freud, “Interpretações de Sonhos“, publicada em 1900, porém, tendo Freud seu primeiro trabalho a ser reconhecido e aceito por um razoável numero de acadêmicos. A psicanálise já dava seus primeiros passos.

            Infelizmente, Freud em sua primeira obra “Estudos Sobre a Histeria” editada em 1895 em parceria com Josef Breuer, ainda não lhe dava fama suficiente como psicanalista, ao contrario, era criticado, inclusive tratado como charlatão, por vários estudiosos, principalmente, por filósofos e médicos.

            Mas, lá pela Suíça tinha quem o defendia – o psiquiatra Carl Gustav Jung do Hospital Psiquiátrico Burgholzli, um dos hospitais mais famosos da Europa. Foi também considerado a cidadela da psicanálise, o único hospital do mundo em que o sistema terapêutico de Freud era utilizado no tratamento de doentes.

            Jung percebeu em Freud a pessoa mais importante que ele tinha conhecido. Certamente, Jung procurava um pai, um mentor, um guia espiritual que ele pudesse confiar. Sigmund Freud ficou tão entusiasmado com Jung, que o convida para comparecer na sua casa em Viena, na Áustria. Carl aceita o convite e vai até Freud. Aí estaria nascendo uma amizade rica, algo também que Freud estava procurando, uma pessoa que pudesse ser uma herdeira da psicanálise e que assumisse a liderança do movimento psicanalítico. Carl Jung tinha todo esse perfil pelo gênio que era, enquanto Freud como pai simbólico aproveitava para conseguir um filho submisso – onde Jung lutara para nunca ser. Em razão disso, deixava Freud extremamente irritado e decepcionado durante seis anos com esse filho teimoso, que desejava frequentemente modificar o conceito de libido e teoria sexual, diferenciando da teoria psicanalítica. Quando finalmente a paciência dos dois se esgota e rompem com o relacionamento amigável em 1913. Freud fica desencantado com Jung pelo resto da vida, sentindo-se traído pelo seu melhor filho. Freud tivera uma raiva de Jung que não acabara nunca mais. Segundo um filho de um discípulo de Jung, que estudava em Viena, a quem Freud conhecia, dizia que quando Freud passava por ele virava a cara num gesto discórdia, por saber que o rapaz fazia parte da laia de Jung. O orgulho de Freud ainda o torturava amargamente.

            Em 1937, quando Freud estava sendo castigado pela guerra no comando de Adolf Hitler, o deixara numa carência financeira bastante crítica, em consequência da falta de pacientes estrangeiros, principalmente dos Estados Unidos, que pagavam as sessões de psicanálise em dólar. Muitos colegas, discípulos e pacientes o ajudaram com alimentos, inclusive vindo de navios dos Estados Unidos, e também em dinheiro.

            Na sua saída forçada de Viena imposta pelos nazistas, que já ocupavam a Áustria, queimando toda sua obra em praça pública, Freud foi obrigado a deixá-la correndo depois de resistir até à ultima esperança – Freud adorava Viena.

            Para os preparativos da triste partida, Freud precisava de dinheiro para seguir até ao exílio em Londres na Inglaterra. Jung sabendo do sofrimento e da dificuldade financeira do seu ex-amigo e mestre, mandar por um portador uma boa quantia em dinheiro para desafogá-lo do desespero, e quando Freud confere a tal encomenda que partiria de Jung, um amigo ingrato, devolve o dinheiro ao portador e envia friamente um recado para Jung com toda velha mágoa latente que ainda lhe amargurava de ódio, dizendo: “Diz para Jung, que quando mais precisei dele, nunca esteve do meu lado. Agora nesta hora está querendo me ajudar. Diga que rejeito a sua ajuda”. Freud ainda sofria muito com a perda daquele que seria seu melhor discípulo.

            Freud e Jung, jamais pensaram que este relacionamento fosse terminar em tragédia, em decepção e raiva, como tantos outros no passado. Pela firmeza de Freud e empolgação de Jung, a amizade seria para sempre.

            Mais tarde, Freud investiga pela psicanálise, que a transferência, provoca uma forte relação de amizade que resultara em laços infantis, porém de dependência, inocência e admiração pelo outro, principalmente na pessoa do analista. Isso ficou claro que ocorreu com Jung em relação a Freud. Depois Freud afirma em suas descobertas psicanalíticas que a transferência era perigosa e que os sentimentos transferenciais devem ser interpretados e analisados de acordo com a técnica psicanalítica.

            Um fato curioso foi um sonho claro e nítido de Jung 24 horas antes do maravilhoso contato pessoal, o tema edípico do desejo do filho de destruir o pai deu todo o parecer. E iria obsedá-los pelos próximos seis anos. O filho e o pai se uniam com toda força para compartilharem com a evolução de uma ciência, mas que depois o filho se sentindo vencedor do pai, ambos se rejeitam e se tornam dois verdadeiros rivais. Se a interpretação desse sonho tivesse levada a séria pelos dois, a decepção tinha sido menor, ou talvez evitada.

            Através de Carl Gustav Jung, a psicanálise em 1906 na Suíça já começava a ganhar partidários, e Freud sendo bastante respeitado e cortejado. Freud via uma conquista mais importante de grande esperança. Ali na Suíça a psicanálise tinha liberdade de respirar sem censura, para por fim ser reconhecida e se espalhar por toda a Europa e o mundo. Jung em três anos já decorridos de amizade com Freud é escolhido para ser o presidente da Associação Psicanalítica Internacional, no dia da sua fundação em 1910 em Zurique. Cargo este, influenciado por Freud. Era em Jung que Freud dava todo comando e confiança. Posição esta, gerava fofocas e inveja por parte dos demais discípulos de Freud.

            Jung era sedutor, e com seu comportamento de galanteador soube muito bem seduzir Freud, assim também era de costume namorar algumas de suas pacientes, como por exemplo, o caso de Sabina Spielrein, foi uma delas. Encaminhada para Jung em decorrência de uma psicose, acaba no decorrer do tratamento se apaixonando por ele, e fantasiava diversas vezes que estava grávida dele. Essa moça que no futuro se torna uma médica e psicanalista procura Freud para descarregar a angústia que sentia em função de Jung, e se analisar um pouco mais, já que com Jung sua análise foi contaminada pela relação íntima amorosa. Por coincidência, Sabina foi a psicanalista do famoso biólogo Jean Piaget.

            Mais tarde, Sabina em retorno para Rússia, seu país de origem, com o objetivo de trabalhar como psicanalista naquele país, em um destino infeliz durante o percurso da viagem, é arrebanhada pelos nazistas, com suas duas filhas e um grupo de judeus, durante a Segunda Guerra Mundial, e foram todos fuzilados. Sabina Spielrein morre com um pouco mais de 50 anos de idade. Sabina, com toda mágoa da ingratidão de Jung, de vez em quando se confidenciava para Freud, dizendo que ainda o amava.

            Pelo que se sabe, Jung tivera cinco amantes, todas foram suas pacientes. Sua esposa Emma Jung tinha conhecimento. No começo não concordava, mas, a vida e o  ensinou a aceitar tal convivência. Emma Já sabia viver com tudo isso, para não perder o marido.

            Depois de muitas cartas entre Jung e Freud, finalmente ele desembarca em Viena, no dia 03 de março de 1907, numa ânsia para ver o gênio da psicanálise. Lembra o filho de Freud, Martin Freud, que no primeiro dia da visita de Jung, ele levara horas e horas conversando sem parar, sem se dar conta do horário do almoço e a atenção às demais pessoas da casa. Tamanha era sua alegria diante do mestre. Entretanto, Freud levara quase todo tempo em silêncio como costumava ser.

            Assim que Freud soube da chegada de Jung, se dirigiu ao hotel com um buquê de flores para Emma Jung. Freud, um homem de 50 anos se desculpou, dizendo: “ Infelizmente não lhes posso oferecer uma verdadeira hospitalidade. Não tenho nada em casa, salvo uma mulher de certa idade. Ele se referia a  Martha Bernays, a sua esposa.

            Na noite do primeiro encontro de Jung com Freud, ele tivera um sonho. Desta vez Freud e ele caminhavam pelas ruas de Viena, como tinha feito horas antes do sonho. Mas no sonho de Jung, Freud parecia diferente. Parecia mais idoso, frágil e de saúde delicada, como se não tivesse muito tempo de vida.

            Ao amanhecer Jung contou o sonho a Freud e pediu-lhe que o interpretasse. Freud interpretou e comentou o simbolismo do sonho. Disse para Jung que da parte dele revelava um desejo inconsciente de morte, que tinha Freud como alvo. Jung desejava destronar Freud para que pudesse tomar-lhe o lugar. Um Édipo a fim de destruir de vez com o pai, tomado por uma forte rivalidade.

            Em 31 de março de 1907, Jung escreve uma correspondência para Freud confessando ser fiel a psicanálise, assumindo de vez em um juramento e defende-la em favor de Freud, escreve Jung: “Espero que meu trabalho em prol da sua causa mostre ao senhor a profundidade da minha gratidão e veneração. Espero e até sonho que possamos recebê-lo em Zurique no próximo verão ou outono. Uma visita do senhor seria para mim pessoalmente o sétimo céu. As poucas horas que me foi permitido passar com o senhor foram fugazes demais”.

            Freud se sentiu lisonjeado com a postura de Jung, e em resposta a sua lealdade, escreveu Freud em 7 de abril: “Não podia imaginar que houvesse alguém mais qualificado para substituir-me um dia á frente do movimento psicanalítico, levando adiante e completando a minha obra”. Freud apelava para que Jung não abandonasse a psicanálise, exigindo mais confiança, e que Jung viesse superar as objeções em relação à sexualidade. O crescente apego de Freud a Jung era não apenas emocional, mas também intelectual e profissional.

            Cada vez mais a admiração de Jung a Freud desvairava sob uma acentuada dependência. Em setembro, num tom de bajuladora adoração, Jung disse a Freud de seu “desejo longamente acariciado e constantemente reprimido. Estimaria muito ter uma fotografia do senhor, não como o senhor era antes, mas como era quando eu o conheci. Jung implorava em um dos imensos desejos e dizia que ficaria eternamente grato porque é imensa a falta que me faz o seu retrato”. E Freud pediu a mesma cordial retribuição de Jung, que também enviasse para ele uma foto.

            Os dois formaram um pacto de inteira confiança e fidelidade. Mas, no futuro esse contrato é mergulhado e afundado no poço, no poço da traição. Freud se sentiu traído por seu discípulo predileto, “ O príncipe da psicanálise”. Jung o abandona como também a sua tão defendida teoria da sexualidade. Freud o condena e nunca mais lhe dar o perdão. Jung sozinho com as suas próprias pernas e genialidade cria sua própria psicologia, porém fundamentada nos princípios da psicanálise e com outros conceitos psicológicos, inconsciente coletivo, e os tipos psicológicos, como atitudes introvertidas e extrovertidas, que denomina de “Psicologia Analítica”, a qual Freud radicalmente sempre criticou o tempo inteiro, assim mesmo Jung sobreviveu. 

*Conrado Matos é Psicanalista, Licenciado em filosofia, Bacharel em Teologia e Escritor.

E-mail: psicanaliseconrado@hotmail.comTels: (71) 8717-3210/9910-6845.

A culpa é da culpa

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Culpa não existe. Culpa é um sistema criado para manipulação das massas. Se você sente culpa por alguma coisa, qualquer coisa, parabéns, você faz parte de uma massa manipulada por alguém! E enquanto isso, você se distancia de ser alguém de verdade e continua sendo mais um peão nesse jogo.

Mas eu sinto culpa e esse sentimento é real! Não é uma invenção, uma manipulação.

É sim. O que prova que você foi tão manipulado que não consegue pensar diferente. Mas se a culpa é um sentimento real e manipulado ao mesmo tempo, só existe uma explicação: sentimos algo que aprendemos a chamar de culpa, que não é culpa. É engraçado que existem sistemas e teorias inteiras baseadas no conceito de culpa, que só servem para propagar essa enganação. O sistema legal é uma delas, por exemplo. A teoria psicanalítica utiliza de conceitos de moralidade e culpa também. E quem as ouve e acredita nisso só está se enterrando mais nesse pântano.

Mas o que é isso que eu sinto então?

Todos nos seres vivos e existentes nesta terra somos fadados a fazer escolhas e sermos livres. “Somos todos condenados à liberdade“. Essa talvez seja a única coisa da qual não temos escolha: a liberdade. Na real, podemos escolher não termos escolha e vivermos de má-fé, nos enganando o tempo todo (é isso que faz a maioria das pessoas). Mas, para chegarmos nesse ponto, tivemos que fazer uma escolha e escolhemos constantemente nos manter nesse estado.

Por sermos seres livres, temos que fazer escolhas. Escolher por escolher é simples: o problema é que toda escolha tem sua consequência e é aí que vem o “X” da questão.

Quando nos deparamos com o desconhecido, nosso organismo ativa um sistema de auto-defesa que nos avisa que algo está errado. É um alerta, uma sensação desagradável que basicamente nos faz ficar atentos ao perigo e termos a reação ou de lutar ou de fugir (fight or flight) para nos protegermos. Quando a ameaça é real, está na nossa frente ou é algo que podemos fazer, como um animal prestes a nos atacar ou uma casa pegando fogo, fica fácil saber qual a nossa reação. Mas, quando essa ameaça vem de algo desconhecido e que não temos controle nenhum, como o nosso futuro ou a consequência indireta das nossas ações?

Isso faz com que sintamos algo que chamamos de “angústia”. Essa angústia é o que nos move para fazermos algo da nossa vida e nos faz tomarmos decisões melhores. Quando escolhemos algo que não nos agrada, essa angústia toma conta de nós e, para evitar esse sentimento, da próxima vez que isso acontece, escolhemos diferente, até acertarmos. É isso que chamaos de responsabilidade: quando, além de escolhermos, escolhemos também as consequências das nossas escolhas.

A experiência e os bons projetos de vida são a melhor forma de não vivermos constantemente angustiados. Mas existe uma forma mais fácil de fazer isso: a culpa.

A culpa é minha e eu faço com ela o que eu quiser!

Quando os primeiros grupos humanos descobriu que todos nós vivemos a partir desse princípio da angústia e da responsabilidade sobre nossas escolhas, eles descobriram que poderiam manipular esse sentimento para controlar as massas. Eles criaram a culpa.

Uma coisa que precisamos entender sobre as escolhas e a responsabilidade: TODA escolha que tomamos sempre envolve pelo menos duas pessoas, ou seja, está em uma relação. Não precisa ser uma pessoa necessariamente, mas sim algo com o qual nos relacionamos. Porém, essa responsabilidade sempre é compartilhada com a outra parte, pois as decisões nunca são feitas sozinhas. Por exemplo, se um casal faz sexo e a mulher engravida, tanto o homem quanto a mulher são responsáveis pelo bebê, ou seja, precisam aceitar as consequências da gravidez.

O mesmo acontece com um caso de estupro: não só o estuprador é responsável pelo ato de violência, mas a mulher estuprada também, pois ela precisa aceitar e conviver as consequências desse ato, sejam elas DSTs, uma gravidez indesejada ou trauma emocional. Em nenhum caso as partes envolvidas em qualquer ação podem ficar omissas de suas responsabilidades, ou seja, das consequências dessas ações. Por isso, ambas as partes convivem com a angústia.

A não ser que se encontre um culpado…

Na relação de culpa, pega-se a relação responsável, e coloca-se toda a responsabilidade que deveria ser compartilhada somente em cima de uma pessoa. Essa pessoa é então culpada e o sentimento de culpa que ela sente é o de angústia da responsabilidade pela ação. A outra parte, por não ser responsável pelas consequências de seus atos, não sente mais angústia! E qual a vantagem disso? É que a parte culpada pode ser desculpada pela parte não culpada. E assim, ninguém vive mais com angústia!

Se ninguém vive mais angustiado, qual o problema? Isso não é bom?

O problema é que a angústia nos leva a sermos responsáveis. Se não temos mais angústia, não temos porque nos responsabilizar por nossas ações. Podemos escolher sem medo das consequências, porque se fizermos algo errado, podemos ser desculpados depois. Tudo bem eu quebrar o copo por não prestar atenção às coisas à minha volta: vão me perdoar e não terei que fazer mais nada a respeito disso.

A vida sem angústia é uma vida irresponsável, é uma vida que não nos pertence, pois não temos mais responsabilidade sobre a consequência das nossas escolhas. Tudo pode acontecer e nada mais é nosso. Se cometemos um erro, ele não nos pertence. Mas se cometemos um acerto, nós o queremos para compensar a falta de experiência alcançada com nossos erros.

Erros e acertos fazem parte da vida e todas as experiências são válidas. Viver de culpas e desculpas é somente aceitar os acertos e dispensar os erros. Sem erros, temos menos experiências e para preencher essa lacuna procuramos sempre mais acertos! Então sempre queremos mais e mais. Só ficamos satisfeitos com a perfeição. O mundo então passa a ser monocromático, onde só o bom e o certo é aceitável. O mau e o errado é ignorado, desculpado e deixado de lado.

A vida perde sua cor. E de quem é a culpa? Da culpa. Ou seja, graças a esse mecanismo de culpa-desculpa que vivemos, deixamos de nos responsabilizar por nossos atos, deixamos de aprender com nossos erros, deixamos de mudar e sermos pessoas melhores graças às nossas experiências.

Me sinto culpado agora. Qual é a solução pra isso?

Pra começar, deixar de se sentir culpado. Como? Reconheça a situação que promoveu esse sentimento. Reconheça as partes envolvidas e aceite a sua responsabilidade sobre o ocorrido. Não queira aceitar a responsabilidade pelos outros já que isso é tornar o outro irresponsável, o que o torna irresponsável também. Não queira abraçar o mundo e reconheça suas limitações. Aprenda que o erro também é válido e necessário para chegarmos onde queremos chegar. Faça projetos responsáveis e faça escolhas responsáveis. Perceba que essas ações são próprias da sua vida e retome ela para você e não deixe que ninguém escolha por você.

Pedras no caminho? Coleciono todas, pois com elas irei construir o meu castelo“.

Viver sem culpa é viver responsável por suas ações, é não aceitar desculpas e fazer as coisas para que as consequências das nossas escolhas sejam sempre as melhores possíveis, dentro daquilo que queremos, planejamos e projetamos para a nossa vida e daqueles com os quais nos relacionamos. “Devo fazer minha escolha como se ela fosse a escolha da humanidade toda“, já dizia Sartre, grande inspirador deste texto. Mas isso não quer dizer que devemos escolher por todos, somente que a minha escolha deve levar em consideração as outras pessoas: quais? Todas.

Talvez assim possamos recobrar as cores da nossa vida criada pelas nuances das nossas escolhas. Tentem! Se der certo, me avisem aqui. Sei que dá certo pra mim e queria compartilhar esse sentimento com vocês.

Pablo de Assis

Pablo de Assis é Psicólogo e bacharel em psicologia, tem MBA em Gestão de Recursos Humanos e é Mestre em Comunicação e Linguagem. Trabalha como professor de psicologia para o ensino médio e superior e também é consultor em tecnologia educacional.

 

O Complexo de Bode Expiratório na Dinâmica Ego – Sombra

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INTRODUÇÃO

Neste estudo tentarei compreender o complexo de bode expiatório na relação ego – sombra, e para ilustrar esta dinâmica será utilizado um caso clínico, cujo atendimento ocorreu no ano de 2004 na Clínica Psicológica “Ana Maria Poppovic”.

De acordo com Perera (1991) o complexo de bode expiatório está associado ao mecanismo de negação da sombra, já que o bode expiatório recebe a projeção da sombra e se identifica com características que o outro não aceita em si mesmo, por não estar em acordo com o ego ideal.

Pretendo através desta monografia contribuir para ampliar o entendimento da dinâmica presente em pacientes identificados com a figura do bode expiatório. E como coloca Perera (1991), esta experiência é mais comum do que imaginamos. Isto porque:

“Até certo ponto, todos nós partilhamos de seus traços mais marcantes, embora estes sejam mais claramente identificáveis em determinados casos. A diferença reside no grau de identificação com o arquétipo e, portanto, no grau de enfraquecimento do ego. A estrutura do complexo permanece a mesma” (p. 14).

Cowan (1994) também comenta que todos nós somos vítimas, e sofremos por algum mal em algum momento da vida ou até mesmo na morte. Mas em alguns essa figura arquetípica pode estar sendo negada ou projetada.

No caso a ser analisado Camila apresenta um alto grau de identificação com o arquétipo da vítima. Sente como se carregasse uma parcela maior de sombra do que deveria. E realmente parece se identificar com parte da sombra familiar, assim como aparenta estar captando e atuando tudo aquilo que vai contra os valores parentais.

Sendo assim, a paciente acaba tomando muitas atitudes para afrontar os pais e foi vista por muitos como rebelde. Assim como os indivíduos identificados com o complexo de bode expiatório a paciente se enquadra no grupo que representa as minorias da sociedade, por ser mulher, homossexual, por já ter tido experiência com drogas. Entretanto, quando falo em minoria, não me refiro a um padrão quantitativo, mas a um grupo marginalizado da sociedade, àqueles que não são bem vistos pelos padrões morais que vigoram na cultura.

Esta identificação com o complexo de bode expiatório parece estar emperrando diversos aspectos de sua vida, principalmente o lado profissional e afetivo. Sensação que ela mesma descreve numa sessão como se estivesse paralisada numa determinada época de sua vida, na qual começou a se sentir vitimizada e a sofrer com a rejeição, principalmente materna.

Perera (1991) descreve bem a situação que a paciente parece estar vivendo quando comenta que muitas vezes os indivíduos identificados com o bode expiatório ficam presos aos ideais coletivos, nos sentimentos de incapacidade e de rejeição, e evitam mostrar seus potenciais para se protegerem de possíveis novos ataques. Dessa forma, a paciente parece experimentar a vivência da vítima de forma defensiva e não criativa, que poderia levar a uma elaboração e a um crescimento pessoal através da compreensão do complexo que a domina.

Camila parece buscar a satisfação pessoal através da vida alheia, e admira o luxo e a vida fácil que as outras pessoas levam, segundo a sua maneira de ver. Através de sua percepção infantil e fantasiosa acaba se comparando com os outros, e coloca seus sonhos num patamar muito alto, tornando-os difíceis de serem alcançados. Assim, fica presa na inveja, que, até então, só tem servido para fazê-la sentir-se ainda pior e sem estímulos para progredir na vida.

Acredito que será necessário, para desenvolver-se criativamente e desfrutar de um crescimento pessoal significativo, poder aceitar a figura da vítima e encontrar um sentido pessoal para essas vivências dolorosas em sua vida. Para tanto, será necessário rever as defesas que serviram até agora como proteção contra a frustração para então poder se envolver mais profundamente nas suas relações, sejam elas profissionais ou amorosas. Penso que, assim, através do enfrentamento da vitimização e de uma postura mais arrojada, poderá aproveitar mais os prazeres da vida, podendo lidar melhor com as futuras crises que naturalmente virão também.

DINAMISMO PATRIARCAL

A compreensão do dinamismo patriarcal torna-se importante neste estudo porque será neste contexto que a psicologia do bode expiatório irá aparecer. Segundo Neumann (1991), na dinâmica patriarcal há uma tendência à unilateralidade, e, portanto, existe a prevalência de um pólo sobre o outro.

Dessa forma, o homem tende a se identificar e a seguir um valor ético, uma instância moral determinada pelo ambiente, pela sociedade e pelo tempo, e por outro lado exclui as propriedades contraditórias a esse valor. O autor considera a “negação do negativo”, a exclusão de tudo que venha a se opor ao ideal de perfeição, como o principal traço do que chama de velha ética. (Neumann, 1991).

O coletivo tende a diminuir as forças ativas de cada indivíduo e a produzir um modo de vida em comum. Tudo o que ameaçar o equilíbrio do coletivo será considerado um tabu e proibido o seu desenvolvimento no indivíduo. (Neumann, 1991).

O ego é o representante das “exigências do coletivo no âmbito individual e rejeita as tendências contrárias existentes” (Neumann, 1991, p. 19). A persona é parte do ego que corresponde às exigências do coletivo, é a máscara utilizada no contato interpessoal. Já a sombra é o outro lado, é composta por todas as propriedades que não estão de acordo com os valores coletivos, é a parte não conhecida e reconhecida da personalidade. (Neumann, 1991).

Ainda de acordo com o autor, é nesse contexto dualista e unilateral da velha ética que a psicologia do bode expiatório vai aparecer como uma das formas encontradas para lidar com o lado sombrio e negativo. Portanto, o bode expiatório será objeto da projeção da sombra e tem um papel fundamental para a economia psíquica, pois mantém fora a parte da personalidade estranha ao ego. Assim, com a ajuda do bode expiatório o coletivo se liberta da sombra, e conseqüentemente do sentimento de culpa que surge da sensação de não estar à altura dos valores diretivos. (Neumann, 1991).

Perera (1991) também coloca que o bode expiatório está associado ao mecanismo de negação da sombra, daquilo que não se adequa ao ego ideal. Segundo ela, o acusador projeta no outro o que não aceita em si mesmo, e, por outro lado, o bode expiatório, que recebe a projeção da sombra, se identifica com estas características.

OS RITUAIS DE BODE EXPIATÓRIO

De acordo com Perera (1991) o termo “bode expiatório” teve origem num ritual presente em diversas culturas nas quais algum objeto, que podia ser desde uma vítima humana ou até mesmo um animal, era sacrificado para os deuses. Isto, porque acreditava-se que quando o mal era magicamente transferido para um objeto material poderia então ser eliminado. Todas estas cerimônias baseavam-se na expulsão do que é percebido como um elemento estranho. Assim, a finalidade deste ato era a de diminuir a ira das divindades; purificar a comunidade, aliviando-os da culpa através do restabelecimento da relação do povo com o espírito e com a moral.

O ritual hebraico do Yom Kippur, o dia do perdão, que faz parte das festividades do Ano – Novo do povo hebreu exprime bem o sentido deste tipo de cerimônia. Nele um bode, o bode imolado, era sacrificado e oferecido a Jeová, para perdoar e purificar Israel por todos os pecados cometidos. Já o bode errante era dedicado ao deus ctônico Azazel, e carregava para o deserto os pecados e a culpa dos israelitas. (Perera, 1991).

Porém, atualmente, o ritual do bode expiatório perdeu o sentido que tinha antigamente e foi banalizado. E, assim, o termo “bode expiatório” passou a ser usado para representar as pessoas que são responsabilizadas pelo mal ou por um delito provocado. (Perera, 1991).

A identificação de um bode expiatório isenta e alivia os acusadores de qualquer responsabilidade, e gera um sentimento de inculpabilidade e de reconciliação com os padrões coletivos de comportamento. Deste modo também tem um sentido educativo, a fim de evitar futuras faltas. (Perera, 1991).

No mundo ocidental freqüentemente o papel do bode expiatório foi atribuído às minorias que carregavam consigo valores que são desqualificados pela cultura e que preferem manter na sombra. (Perera, 1991).

ESTRUTURA DO COMPLEXO DE BODE EXPIATÓRIO

Perera (1991) a partir da análise do ritual hebraico descreve a estrutura do complexo de bode expiatório. Distingue alguns aspectos que compõem esta estrutura e que podem ser vivenciados pelos indivíduos que se identificam com este complexo. São eles: azazel, o acusador; o bode imolado; o bode errante; o sacerdote; e o ego – persona.

Azazel aparece nos indivíduos identificados com o bode expiatório como um acusador, que é experimentado como uma moral elevada, um sádico superego. Este aspecto é constelado pela rejeição na família. Ao mesmo tempo a pessoa identificada com o arquétipo do bode expiatório apega-se ao acusador, e também o teme.

O bode imolado “… corresponde ao pré -ego ou ao ego -vítima, oculto e desamparado, que sofreu e se identifica com a rejeição”. (Perera, 1991, p.29). Convive com o sentimento de culpa, sente-se indigno de viver, pela incapacidade de seguir os ideais coletivos. Costumam se colocar perante a vida de forma infantil, e na relação transferencial com o terapeuta pode ser despertada tanto uma raiva profunda, quando antigas feridas do ego -vítima forem tocadas, quanto um amor carente.

O bode errante simboliza os impulsos que se encontram presos no indivíduo identificado com o bode expiatório, e com os quais se sente no dever de carregá-los. E nesse sentido exprime uma força que contrapõe e protege o ego -vítima.

O sacerdote representa um modelo para o ego-persona alienado do que é coletivamente aceitável, do ideal, e do que é bom. O indivíduo identificado com o complexo de bode expiatório se relaciona com o mundo através do ego- persona. Através dele busca se adaptar ao coletivo e ser aceito a qualquer custo, sendo que para isso adota qualquer persona e tenta ocultar o material da sombra coletiva. Mas, ainda segundo a autora, ao mesmo tempo também teme ser aceito porque teria que abandonar a principal base de sua identidade.

A VÍTIMA

Farei uma análise mais detalhada do ego-vítima, por considerar esta faceta do complexo de bode expiatório um fator importante para a análise posterior do caso. Para tanto utilizarei um texto de Cowan (1994) que aborda o tema do arquétipo da vítima.

A autora inicialmente fará uma distinção entre a vítima sagrada e a secular. A vítima secular, de acordo com ela, é aquela que se vê forçada por um ato criminoso a se colocar na posição de vítima da violência. Entretanto, neste trabalho me ocuparei apenas da vítima sagrada, pois me interessa a vivência interior do arquétipo da vítima na psique humana. Cowan (1994) define a vítima sagrada como a forma como a pessoa se imagina no seu sofrimento.

O termo vítima, assim como o bode expiatório, está associado ao sacrifício dedicado a um deus ou a um propósito religioso. A vítima evoca significados contraditórios, pois ao mesmo tempo pode ser vista como amaldiçoada, por pagar pelos pecados dos outros, mas também pode ser vista como inocente, por não merecer essa sina. Também traz consigo idéias referentes ao sofrimento e à impotência, e por isso a emoção primária que costuma acompanhar a vítima é o medo.

Perera (1991) lembra que a vítima é percebida como o aspecto sacrificado do complexo, mas em contraponto também há um sentido de onipotência relacionado ao fato de ter sido a escolhida para suportar a dor.

De acordo com Cowan (1994), a vítima é acometida pela questão “Por que eu?”, e logo busca um sentido para o sofrimento vivido. “O que redime o sofrimento e a angústia da vítima não é necessariamente a cessação do sofrimento, mas vivenciá-lo como algo dotado de sentido” (p.220). E muitas vezes pode não ser encontrado o motivo de tanto sofrimento, mas ainda assim poderá haver um significado para tudo isso, que é algo extremamente pessoal.

A experiência da vítima pode parecer terrível, mas uma vivência tão profunda de perda e de dor como esta é um rito de passagem fundamental para o amadurecimento. Esta experiência nos traz a dimensão do humano, do limite, a idéia de que não somos deuses. (Cowan, 1994).

E poder aceitar o sacrifício e viver na adversidade é algo muito importante para o crescimento pessoal e se esta experiência for aproveitada de forma criativa pode levar ao encontro do indivíduo com o seu Self. Entretanto, é importante relembrar que crescer não significa negar e deixar para trás a experiência de vítima, mas poder aceitá-la e cuidar dessa dor sentida. (Cowan, 1994).

Mas Perera (1991) alerta que os indivíduos identificados com o complexo de bode expiatório muitas vezes ficam presos aos ideais coletivos, aos sentimentos de incapacidade e rejeição, e, sendo assim, costumam experimentar a vivência da vítima de forma defensiva e não criativa. Fazem de tudo para evitar os ataques do acusador, se protegem não expondo seus esforços criativos e espontâneos.

Portanto, apesar da elaboração da vivência da vítima ser fundamental para o seu amadurecimento, geralmente é muito difícil sair de um círculo vicioso no qual a própria pessoa se envolve. Isto porque o indivíduo identificado com o complexo de bode expiatório está habituado a ficar no papel da vítima, de rejeitado e excluído, e teme se arriscar em novos papéis, que podem trazer à tona novos sofrimentos e agressões. Ficar na posição de vitima tem uma função defensiva na dinâmica psíquica que reedita sempre a projeção da responsabilidade no outro e mantém a culpa pelo seu sofrimento fora de si mesmo, dessa forma além do medo de arriscar outra posição, ficar no lugar da vítima evita sofrer a dor das próprias feridas e aproriar-se delas como suas.

Entretanto, compreender o sentido desta identificação com o complexo de bode expiatório é um esforço necessário e importante no caminho da individuação da vítima. Penso que essa busca de sentido deve ser despertada no período que Perera (1991) chama de exílio no deserto, que equivale no ritual hebraico com a expulsão do bode errante para o deserto. Esta seria uma tentativa de retorno e de reconciliação com o transpessoal.

“Psicologicamente, o deserto, para esses indivíduos, é análogo ao seu senso paralisante de apatia, de ausência de sentido, de abandono e pânico. Reflete a dor do seu perene não -pertencer; da sua carência de um porto seguro; de seu viver às escondidas”. (Perera, 1991, p. 36).

No exílio o bode expiatório deverá entrar em contato com a própria realidade e isso inclui entrar em contato com dolorosos sentimentos de exclusão, de se sentir inaceitável e diferente. (Perera, 1991).

E como vimos, será indispensável, para o amadurecimento do indivíduo identificado com o bode expiatório, em algum momento da vida, poder reconhecer sua condição de vítima e poder cuidar de suas próprias feridas de forma criativa.

O BODE EXPIATÓRIO NA FAMÍLIA

O ambiente familiar tem importância primordial para a formação da personalidade de uma criança e para a socialização desta. Isto porque a família é para a criança um modelo de referência que futuramente influenciará os relacionamentos que naturalmente o indivíduo desenvolverá com o mundo.

Na relação com os pais a criança capta os valores que regem a vida familiar, percebe o que é aprovado ou desaprovado por eles, e dessa forma aos poucos vai podendo se adaptar e iniciar um convívio social mais amplo.

Segundo Neumann (1980) nos primeiros anos de vida a criança mantém uma relação simbiótica com a mãe, dependendo profundamente dos cuidados dela para garantir a sua sobrevivência. A criança experimentará vivências de prazer vinculadas ao alívio da tensão provocada pelas sensações de fome, dor, etc. Mas também em alguns momentos será frustrada por não poder ser atendida em todos seus desejos. A alternância da satisfação e da frustração é importante para o desenvolvimento da personalidade e da capacidade de integrar crises futuramente. Entretanto, se as vivências de desconforto forem muito intensas e prolongadas poderá se instaurar na criança uma insegurança básica e profunda.

Por ser o primeiro contato do indivíduo com o meio externo, a relação primal tem um valor fundamental para o desenvolvimento da estrutura psíquica do indivíduo. O ego para ser forte precisa ter passado por boas experiências com o materno a fim de desenvolver um sentimento de confiança básica. O sentimento de valor próprio na criança é decorrente da valorização e acolhimento fornecido pela mãe. Isto porque nesta relação inicial a criança não discrimina eu-outro e a percepção que terá sobre si mesma começa a ser desenhada pelo olhar e o desejo dos pais, muitas vezes até mesmo antes do nascimento.

É justamente pela importância destas relações com as figuras parentais que torna-se necessário que os pais estejam em contato com as próprias sombras, pois caso contrário terão dificuldade em aceitar o lado escuro da criança e lidar com a sombra dos filhos. (Sanford, 1988).

Muitas vezes as questões não resolvidas pelos pais são passadas inconscientemente para os filhos. E é neste contexto que pode se estabelecer a identificação com o material da sombra familiar, que caracteriza a vivência de adultos identificados com o complexo de bode expiatório. De acordo com Perera (1991) é comum que as crianças identificadas com o bode expiatório sejam vistas pelos pais como perigosos observadores porque captam inconscientemente o conteúdo sombrio da família.

Quando a criança sente que não consegue corresponder às expectativas dos outros pode apresentar um comportamento inaceitável e tornar-se um bode expiatório para a projeção da sombra alheia. (Zweig & Abrams, 1994).

Porém, apesar da projeção da sombra dos pais, ainda assim há um vínculo forte do bode expiatório com o perseguidor, e é justamente essa ligação que dificultará expressões de hostilidade para o pai ou a mãe que persegue, além do medo de retaliação. (Perera, 1991).

É importante que os filhos não sejam castigados pelos pais com rejeição, com a retirada do afeto e da aprovação. Isto porque, segundo Sanford (1988): “Quando isso ocorre, as crianças recebem a mensagem de que são más; além disso, elas se tornam responsáveis pelo mau-humor da mãe ou do pai, o que as leva a ter sentimentos de culpa e auto-rejeição” (p. 73).

De acordo com Perera (1991), aqueles que se identificam com o bode expiatório sentem-se portadores de comportamentos e atitudes vergonhosas que perturbam o casal parental e a sociedade como um todo. Os indivíduos identificados com o arquétipo do bode expiatório: “Sentem-se inferiores, rejeitados e culpados. Sentem-se responsáveis por algo além de sua parcela individual de sombra” (p.13).

Segundo Perera (1991) as famílias dos indivíduos identificados com o bode expiatório são bastante preocupadas com as normas coletivas, e projetam, de forma inconsciente, em algum ou em alguns membros familiares, aquilo que consideram negativo. Portanto, neste caso a família pode estar identificada com Azazel, o acusador, se pensarmos nas estruturas que formam o complexo de bode expiatório.

Geralmente possuem um forte superego, uma persona coletivizada, e uma identidade dependente da aprovação social. Portanto, na relação interpessoal, ainda que entre pessoas mais próximas, adotam papéis e tentam fazer valer suas regras também para os outros. Evitam o contato emocional direto por terem medo da exposição e operam defensivamente através de um pensamento concreto e prático. (Perera, 1991).

Os impulsos da sombra dos pais, que são negados por eles, muitas vezes irrompem no lar e são desprezados e atacados por eles. Portanto, é comum o confronto dos pais com esse material sombrio que destoa do padrão coletivo ao qual estão associados. (Perera, 1991).

O adulto identificado com o bode expiatório resulta da criança que absorveu e passou a carregar a sombra familiar. E por isso, como já foi dito anteriormente, sente-se responsável por algo maior do que sua parcela individual de sombra.

“A inabilidade do bode expiatório adulto em desenvolver uma autoconfiança própria deve-se ao fato de ter sido sobrecarregado, desde muito cedo, com aqueles elementos desvalorizados, negativos, reprimidos e dissociados pelos pais, que, em primeira instância, representam o coletivo”. (Perera, 1991, p.41).

Além da autoconfiança o indivíduo identificado com o bode expiatório também herda outras características como resultado desta sobrecarga de material sombrio com o qual se identifica.

A realidade é percebida de forma distorcida, pois adquiriu da família uma consciência rígida e julgadora. Assim, o bode expiatório tem uma visão fragmentada da realidade, tende a ver tudo como bom ou mau. Possui um ideal perfeccionista que reforça a vivência do fracasso, a auto-rejeição e o isolamento, que impedem ainda mais o próprio desenvolvimento (Perera, 1991).

“A típica distorção de percepção afeta a imagem física da pessoa de diversas maneiras. Geralmente, ocorre uma idealização de alguma parte da imagem coletivamente aceitável; esta parte torna-se o objetivo e o foco da visão que a pessoa tem do próprio corpo, pois parece residir ali a sua deficiência”. (Perera, 1991, p. 56).

Muitas vezes apresentam também uma rigidez corporal forte, e uma atrofia de sensações físicas em algumas regiões do corpo. Isto porque esta insegurança vem dos pais que possuem um forte tabu com o tocar e ser tocado, tanto fisicamente quanto emocionalmente. (Perera, 1991).

Ainda segundo a autora, o indivíduo identificado com o bode expiatório pode apresentar dificuldade com vinculações, e a sentir-se acolhido com segurança. Esta dificuldade de envolvimento é também uma proteção para não ser ferido novamente com o material da sombra.

“Isso significa que nenhuma experiência poderá ser vivida em profundidade e nenhum relacionamento com um Outro exterior poderá desenvolver-se, pois qualquer abertura poderá acarretar mais sofrimento”. (Perera, 1991, p. 62).

ANÁLISE DO CASO CLÍNICO

Camila, 25 anos, é a filha mais velha de uma família conservadora, que, de acordo com ela, conquistou uma condição financeira privilegiada. Apesar da idade apresenta uma posição mais infantil e em alguns momentos parece tomar algumas atitudes por birra, inveja, ou simplesmente para afrontar os pais.

Conta de uma relação bem difícil com a mãe, de quem não se recorda de nenhuma preocupação em relação a ela ou de alguma manifestação de carinho. Ao contrário, relata, com algum sofrimento, insultos e agressões protagonizadas por sua mãe. Muitas de suas dificuldades serão atribuídas por ela a esta relação.

E como sabemos, a relação primal mãe -filho tem um valor fundamental para o desenvolvimento da personalidade e da estrutura psíquica do indivíduo, já que representa um modelo para as relações interpessoais que o indivíduo irá desenvolver no futuro. É possível imaginar que o relacionamento não satisfatório com o materno tenha deixado marcas profundas na relação que a paciente tem consigo mesma e com os outros.

Camila conta que na adolescência rebelou-se e tornou-se mais agressiva com a mãe, impedindo que ela pudesse machucá-la ainda mais. Nesta fase envolveu-se com drogas e começou a ter suas primeiras experiências homossexuais.

Atualmente, a paciente mora com a namorada, deixou a casa dos pais e todo o conforto que lhe era proporcionado, pois estes não aceitaram o fato de ser homossexual. Essa informação confirma que para sua família, assim como ocorre nas famílias de indivíduos identificados com o bode expiatório, o valor fundamental é estar de acordo com os padrões coletivos, e por isso, acredito que foi tão difícil aceitar uma filha homossexual.

Apesar de ter escolhido sair da casa dos pais, em muitos momentos parece se perguntar se esta foi a opção mais correta. Às vezes dá indícios de querer voltar a morar com sua família e parece se esquecer de que a convivência na sua casa já estava muito difícil, pois não a aceitavam em suas diferenças. Sofre com as conseqüências desta decisão e se ressente por se sentir excluída da família. Parece não ter consciência de que este sentimento de exclusão independe de morar junto com os pais ou não, que esta é uma questão muito mais antiga e complexa.

O sentimento de inferioridade e de rejeição está presente não só na relação com a família, mas também em outras relações. Desde pequena convive com a sensação de não se sentir parte de nenhum grupo, nem na escola; nem em ambientes de trabalho, onde não se sente à vontade com os colegas; e muitas vezes nem mesmo com o grupo homossexual, no qual não se identifica com a perversão e estereotipia das lésbicas masculinizadas e dos “bichas” que, segundo, ela, só fazem intrigas. Dessa forma, vive, como coloca Perera (1991), um profundo, angustiante e perene sentimento de não-pertencer. O sentimento de inadequação é muito constante para ela, assim como o sentimento de exclusão.

A paciente procurou psicoterapia, pois estava muito confusa, não sabendo mais o que fazer para mudar sua vida, não conseguindo mais distinguir o que era certo e o que era errado. Sentia que sua vida estava estagnada, como se o tempo tivesse parado na sua infância, que foi uma etapa traumática na sua vida, na qual viveu uma relação problemática com a mãe. Neste período instaurou-se um profundo sentimento de rejeição, que veio a abalar profundamente sua auto-estima, sua confiança nos outros e em si mesma.

Trouxe também queixas com o trabalho, no qual não se sente mais estimulada; com a própria aparência, já que se sente gorda e diferente fisicamente de sua família; com a própria família, que não apoiou sua opção sexual e sua saída de casa; e com a namorada, com quem tem mostrado muita impaciência.

Ao mesmo tempo em que foi aparecendo uma insatisfação em diversos planos de sua vida, que reforçaram a sensação de estagnação, também surgiu um desejo de transformação, de poder fazer algo para mudar sua trajetória de vida. Porém, esta vontade logo era substituída por um conformismo e por um sentimento de culpa toda vez que se queixava do comportamento dos outros. Esta alternância e contradição entre os sentimentos foram constantes no processo terapêutico.

Esta fase reflete a insatisfação da paciente com o momento atual de sua vida, e o temor pela mudança, o medo de querer algo melhor para si mesma e de se frustrar novamente. Este período é muito bem ilustrado por Perera (1991), que comenta sobre a dificuldade que o indivíduo identificado com o bode expiatório possui para se libertar dos ideais coletivos, e de mostrar os esforços criativos e espontâneos.

Camila coloca também um questionamento a respeito da própria homossexualidade e parece não se sentir totalmente segura a respeito de sua opção sexual. Em algumas sessões demonstrou o desejo de tentar compreender melhor sua sexualidade e assumiu o conflito de não saber se apenas sente repulsa pelos homens, como ela mesma declarou, ou se realmente tem atração por mulheres.

Desde o início dos atendimentos seus relacionamentos amorosos pareciam estar mais enraizados num forte companheirismo e numa ligação associada à fuga dos problemas familiares enfrentados pelas parceiras. E por outro lado, como a paciente revelou num atendimento, o lado sexual sempre apareceu como uma grande dificuldade pessoal tanto em relações homossexuais, quanto nas experiências heterossexuais que teve.

Infelizmente não foi possível avançarmos muito a respeito dessa complexa questão, entretanto acredito que este é um ponto fundamental que deve ser aprofundado por ela em seu processo de amadurecimento.

Nos relacionamentos interpessoais em geral, incluindo os amorosos, revelou sua dificuldade de aproximação das pessoas, com o toque, com o compromisso e com o aprofundamento das relações. A questão da confiança também foi colocada como mais uma problemática sua a ser trabalhada, pois desconfia a priori das pessoas que se aproximam dela, e tem o hábito de rotular as pessoas antes de conhecê-las mais a fundo. Dessa forma, acaba cortando a possibilidade de um envolvimento maior com as pessoas.

Como vimos anteriormente essa insegurança básica é proveniente de uma relação insatisfatória da paciente com a mãe, que não pôde passar um sentimento de confiança. E a dificuldade com o tocar e o ser tocado (fisicamente e emocionalmente), segundo Perera (1991), vem da própria inabilidade dos pais para lidar com o lado afetivo. Conseqüentemente, a paciente identificada com o complexo de bode expiatório desenvolveu uma dificuldade com a vinculação e o envolvimento, e, assim, acredita estar evitando novas possibilidades de frustração.

Perera (1991) lembra que para o indivíduo identificado com o bode expiatório nenhuma experiência poderá ser vivida em profundidade, assim como nenhum relacionamento com um Outro poderá desenvolver-se.

Profissionalmente também existe uma influência desse padrão comportamental, já que não consegue se fixar e se desenvolver em um emprego. Tem o costume de abandonar o cargo quando não se sente acolhida por colegas no ambiente de trabalho. Com isso, apesar de seu potencial, não consegue crescer profissionalmente e o resultado disso é que já passou por diversos empregos (registrados em carteira), sendo todas empresas restaurantes e hotéis reconhecidos e de grande porte.

Além disso, Camila parece ter a impressão de que seu fardo é muito maior do que o dos outros, e que para todos a vida é mais fácil. Isto se evidencia na relação com sua irmã do meio, que é vista como alguém que deu certo na vida, e também na rotina de sue trabalho no hotel, em que tem contato com artistas, jogadores de futebol e até prostitutas que, a seu ver, desfrutam de diversos luxos.

Aparenta estar fixada na idéia de obter sucesso de forma rápida, quase mágica, e não considera as dificuldades e sacrifícios envolvidos neste processo de se tornar alguém bem sucedido. Acredito que este desejo de poder está relacionado à vontade de provar para os outros, todos aqueles que não acreditaram nela, do que é capaz de obter sem a ajuda de ninguém. Porém, fomos nos dando conta de que dessa maneira não está conseguindo progredir e ainda é obrigada a lidar com uma grande frustração por não conseguir atingir os sonhos que tem para sua vida. Em alguns momentos a paciente é tomada pela desesperança, e chega a dizer que não vai mais esperar nada e que vai deixar a vida levá-la para onde quiser, já que seus desejos nunca se concretizam.

Também apareceu nos atendimentos uma dificuldade de não querer ir mais a fundo em nenhum assunto que era mencionado por ela. Portanto, apresentou a tendência a banalizar suas questões mais problemáticas, pois falava com descontração e ironia de assuntos sérios, e uma dificuldade de entrar em contato com a emoção, de aprofundar o entendimento sobre si mesma. Em praticamente todas as sessões mantinha um momento de descontração no qual me contava as fofocas do mundo artístico, que acaba tendo contato por trabalhar no ramo hoteleiro. Penso que o humor nesse caso aparece como uma tentativa de contrabalançar todo o sofrimento vivido.

Em uma sessão, ao apontar essa dificuldade de aprofundar e de se comprometer com o processo terapêutico, a paciente admitiu que teve que criar uma “casca”, e por isso evita relembrar situações difíceis pelas quais passou.

Mostrei também a alternância que aparecia de uma sessão para outra e que matava seu desejo de transformação antes mesmo de pensar em realizá-lo. Este comportamento indica que muitas vezes a paciente é tomada pelo medo e prefere se conformar com sua realidade e não arriscar desejar algo melhor para sua vida. Além dessa insegurança profunda, o pessimismo e a desesperança também a acompanham constantemente.

Acredito que a paciente, até por uma questão de sobrevivência psíquica, acabou desenvolvendo defesas, que podem ser consideradas saudáveis e que serviram como proteção por muito tempo.

Assim, como disse, tentou apagar de sua memória todas as lembranças desagradáveis da infância. Mas percebemos que tais recordações estavam apenas adormecidas para virem à tona num momento mais oportuno. Tudo indica que essa defesa estava impedindo que pudesse progredir na vida e para isso seria necessário suspender no tempo certo essa barreira para poder entrar em contato com o sofrimento vivido, que faz parte da sua história.

Outra defesa que desenvolveu foi a de auto-suficiência, pois sempre se virou bem sozinha, preferindo não depender dos outros para nada. Esta proteção está ligada a desconfiança que sente na relação com os outros. Em sua família tem a idéia de que irão pedir algo em troca caso venha a pedir a ajuda deles e que irão apontar a todo o momento a sua fraqueza.

Porém, a independência exacerbada acaba reforçando ainda mais sua exclusão dos grupos sociais, na medida em que recusa a aproximação e o envolvimento das pessoas com suas questões. Mas esta atitude defensiva não evita o sofrimento, porque percebo que a paciente também sofre com a reação das pessoas que obedecem ao seu pedido de não se aproximar. Esta posição pode ser questionada, pois ao mesmo tempo em que tenta não criar expectativas sobre os outros, também deixa de lado a intensidade e a emoção da vida, que envolve os riscos, vivências de prazer e de sofrimento.

Entretanto, na sessão seguinte, após a exposição da percepção dessas defesas e o questionamento sobre a funcionalidade destas no processo terapêutico, a paciente revelou o impacto que esta colocação teve sobre ela. Disse que ficou muito triste e que pensou em desistir da terapia, pois não estava disposta a se abrir e sofrer com o que tinha para me contar. Mas ao contrário com um grande esforço decidiu me contar fatos que marcaram sua vida.

Este pode ser considerado um marco neste atendimento, que deu início à segunda fase do processo, no qual ela começou a trazer suas reais dificuldades, seus medos, e todo seu sofrimento.

A partir daí pôde falar sobre seus traumas de infância que estão relacionados a situações vividas com sua mãe. Contou de insultos que ouvia de sua mãe quando era pequena, principalmente no que se refere a sua aparência. O que mostra mais uma vez o quanto os ideais coletivos são importantes para sua família, em especial para sua mãe que demonstra dificuldade em aceitar uma filha que não está de acordo com os padrões estéticos que a sociedade impõe.

Esta percepção da mãe foi passada para filha que até hoje não consegue se sentir bem com sua aparência física, e se sente gorda e feia. Este ideal perfeccionista, de acordo com Perera (1991), reforça ainda mais o sentimento paralisante de fracasso e rejeição. Ainda segundo a autora, o foco nesta parte do corpo, que a pessoa sente como inadequada, acaba abrigando o sentimento de deficiência, que, entretanto, é algo muito maior do que apenas uma sensação física.

As agressões tanto físicas quanto psíquicas que sofreu instauraram um sentimento de rejeição a ponto de se questionar na infância se realmente era filha legítima de seus pais, já que se considera diferente fisicamente de todos da família.

Comentou sobre uma sensação de que pode ter sido violentada quando pequena, embora não saiba como e quem poderia ter feito isso. Percebemos que as atitudes da mãe com ela, que indicavam uma forte rejeição, muitas vezes foram vividas como um abuso, uma violência, mas não necessariamente sexual. Neste momento trouxe também suas dificuldades sexuais, sua falta de desejo sexual tanto por homens como por mulheres.

Essas revelações, que foram favorecendo a compreensão do caso, também foram anunciadas por seus sonhos através das “bombas” que apareceram. Apontavam para o risco e o sofrimento que poderia vir junto com esses temas mais sombrios, mas também mostravam o lado positivo, a “recompensa” decorrente desse aprofundamento.

Entretanto, nesta etapa também ficou mais forte a sua ansiedade, e a pressa para compreender-se melhor e para sentir-se melhor. Em algumas sessões deixou claro que somente os atendimentos não estavam dando conta de sua ânsia e passou a buscar apoio em sites, livros, conversas com amigos e com um médico acupunturista.

Até mesmo na semana de férias em julho continuou com o trabalho psíquico através de um livro que comprou e que falava sobre conceitos junguianos, como ego e sombra. Gostou muito do livro “Ao Encontro da Sombra” e ao mesmo tempo em que foi se identificando com o que lia, por outro lado ia ficando cada vez mais triste, tendo que pular alguns trechos que a faziam sofrer.

Comentou, na sessão após as férias, que achava que sua sombra era muito grande, já que sentia que carregava a sombra de sua família. Começou a responsabilizar sua mãe por isso e conforme lia ia ficando com mais raiva dela.

O ressentimento também foi dirigido a seu pai que, segundo ela, nunca foi capaz de fazer nada para impedir a agressividade da mãe direcionada principalmente a ela, e que também nunca soube dar afeto para as filhas, apenas coisas materiais.

A decepção com os pais se intensificou quando sua família se mudou para Manaus, onde já mora sua irmã do meio. Reviveu neste momento um sentimento de abandono, no qual chegou a se perguntar: “E eu, poxa?”. Sentiu-se frustrada, pois até então havia uma proposta de sua família para ajudá-la e estavam insistindo para que ela fosse morar lá com sua irmã, e sem mais nem menos todos foram, enquanto ela ficou.

A paciente tem uma relação de competição com esta irmã, e enquanto ela fica com o lugar de boa filha na família, de bem sucedida, Camila parece ocupar um não – lugar. E sente que enquanto sua irmã atrai sua família para perto, ela os afasta.

Os conteúdos de agressividade logo foram substituídos por um sentimento contraditório de culpa, de compreensão com os possíveis motivos que levaram seus pais a agirem dessa forma com ela.

Na última sessão que veio, contou que já estava melhor, que começou a fazer acupuntura, que parou com suas leituras e que agora estava lendo um livro de budismo. Colocou que estava bem com a parceira, e que os pais estavam ajudando a comprar um apartamento para ela. Além disso, disse que estava mais tranqüila, conseguindo falar mais dos seus incômodos. E depois desse dia não veio mais dizendo que não conseguiria mais conciliar o horário da terapia com sua escala no trabalho.

Avalio positivamente o processo na medida em que propiciou que muitas questões fossem trazidas à consciência e que fossem estabelecidas várias associações que favoreceram para uma melhor compreensão de seus problemas.

Acredito que foi necessário parar a terapia, pois não estava agüentando entrar em contato com tantas lembranças dolorosas de rejeição e abandono, e com o ressentimento com os próprios pais. A culpa por esses sentimentos parece ter tomado uma dimensão muito grande e talvez por isso tenha optado por terminar o processo terapêutico de forma tão abrupta. Com isso, fica comprovado o quanto realmente é difícil expressar hostilidade pelos pais perseguidores devido ao forte vínculo que é estabelecido com eles.

Preferiu ficar com uma idéia mais confortante de que estava tudo bem e talvez com uma esperança de que a atitude dos seus pais ou de sua namorada poderia mudar. E é provável que esta tenha sido uma proteção necessária, uma forma do inconsciente mostrar que ainda não é o momento para revisitar esses aspectos de sua vida.

Isto porque seus sonhos já apontavam para o risco de entrar em contato com esses fortes conteúdos. Um deles indicou através de uma corda frágil que a segurava num penhasco que sua estrutura psíquica era frágil e que poderia se romper. Mas por outro lado também mostrava que era importante abordar esses temas mais dolorosos, pois seria recompensada com algo positivo e com uma maior segurança e tranqüilidade na sua vida. Por isso, acredito que, em algum momento, seja importante para a paciente retomar o processo terapêutico, pois poderá receber bons frutos deste trabalho.

CONSIDERAÇÕES FINAIS

No caso analisado, acredito que muitas das dificuldades atuais de Camila sejam decorrentes de uma relação primal não satisfatória. Chegou a se questionar em algumas sessões se realmente foi desejada pelos pais ou se é filha legítima deles. Vejo esta questão como uma tentativa de tentar entender o porquê de tanta rejeição e abandono.

O olhar dos pais, os desejos que possuem para os filhos, até mesmo antes de nascerem, são captados inconscientemente por eles que tentam de alguma forma satisfazer essas expectativas.

Porém, no caso analisado, a paciente parece ter sentido que não conseguiria corresponder às expectativas dos pais e talvez por isso tenha trilhado caminhos que são condenados por eles, tornando-se assim um bode expiatório para a projeção da sombra dos outros. Assim, não só captou a sombra familiar, como se identificou com esses conteúdos sombrios.

A paciente parece ter assumido de fato a concepção que os pais tem sobre ela, e por isso encontra-se presa ao padrão coletivo, ao perfeccionismo que acaba tornando-a muito mais exigente consigo mesma e exaltando os sentimentos de incapacidade e de rejeição toda vez que vive um fracasso.

Talvez por ter recebido desde muito cedo uma imagem negativizada através da mãe, a paciente tenha tanto problema com sua auto-imagem e acredito que até uma distorção de sua autopercepção.

A dificuldade com a confiança também foi outra herança desta relação primal conturbada, já que é neste relacionamento que este atributo irá se desenvolver. A paciente naturalmente desconfia das pessoas, prefere manter uma relação superficial com os outros e se sente muito à vontade sozinha com seus pensamentos e fantasias. Mas por outro lado se ressente desse isolamento, e muitas vezes, em momentos de confusão, encara o afastamento das pessoas como abandono e não como algo que muitas vezes é ela mesma que provoca.

O medo é um sentimento que a acompanha e ajuda a reforçar a sensação de que não está progredindo na vida. Prefere não correr o risco de ter a possibilidade de reviver as frustrações e por isso evita o envolvimento com as pessoas e o aprofundamento das relações.

Além de interferir nos vínculos afetivos, este traço de personalidade também acaba impedindo o seu desenvolvimento profissional, já que não consegue se fixar em um emprego e prefere pedir demissão sempre que não se sente acolhida e valorizada pelos colegas de trabalho.

A inveja da vida alheia é outro fator que dificulta o seu desenvolvimento pessoal, pois acaba se espelhando na imagem fantasiosa que tem da vida dos outros, cercada de luxo e com poucos sacrifícios, e fundamenta seus sonhos nesse padrão. Dessa forma, busca atingir o sucesso de forma rápida, ao invés de batalhar aos poucos nesse processo de obter reconhecimento profissional. E, assim, se decepciona ao perceber que não evoluiu tanto quanto desejava.

Portanto, as marcas deixadas na paciente por esta relação inicial realmente foram muito profundas e afetaram suas relações em geral, o sentimento de confiança básica (em si mesma e nos outros), e sua auto-estima.

Entretanto, não cabe neste estudo e acredito que nem para a psicologia qualquer tipo de julgamento a fim de responsabilizar alguém pelo que se passou. Penso que o mais importante é compreender não só toda essa sua história pessoal, como poder fazer algo a partir disso.

Quando a paciente procurou psicoterapia, tudo levava a crer que as defesas que a paciente teve que criar para se proteger do sofrimento não estavam mais servindo como antes, e estavam provocando uma sensação de estagnação diante do complexo do bode expiatório, já que muitos aspectos (profissional, afetivo, etc.) não estavam fluindo bem. Camila expressou essa sensação como se estivesse paralisada nas tristes lembranças de sua infância, nas agressões de sua mãe para com ela e na apatia de seu pai em relação a essa situação.

Dessa forma, a paciente parece experimentar a vivência da vítima de forma defensiva e não criativa, que poderia levar a uma elaboração e a um crescimento pessoal através da compreensão do complexo que a domina.

Portanto, é necessário que possa sair deste estado de estagnação, no qual se encontra, e desistir da ilusão e da expectativa de voltar no tempo para ter uma família diferente mais amorosa, compreensiva e dedicada. Portanto, é importante que possa se conformar com aquilo que sua família é, pois assim acredito que poderá realmente seguir a sua vida e tornar-se menos determinada por essas situações traumáticas que marcaram na infância.

Penso que para um crescimento pessoal significativo, como coloca Cowan (1994), seria fundamental entrar em contato com a experiência de vítima, com o sacrifício, para poder elaborar suas vivências dolorosas. Ainda de acordo com a autora, mesmo que não se encontre um motivo que justifique a história de agressões pela qual a vítima passa, é importante vivenciar o sofrimento como algo dotado de sentido.

Torna-se necessário para a paciente aceitar a figura da vítima que está constelada em sua psique, e encontrar um sentido pessoal para essas vivências dolorosas em sua vida. Para tanto, será importante abrir uma brecha nas defesas que teve que construir na sua vida, deixando um pouco de lado a proteção que desenvolveu contra qualquer possibilidade de frustração. Assim, percebo que é importante para a paciente rever as etapas difíceis que já viveu e intensificar suas relações, pois, dessa forma, poderá se arriscar mais e desfrutar mais dos prazeres da sua vida, e não da dos outros.

Acredito que, em algum momento, pode ser igualmente importante para a paciente entender e aceitar as dificuldades e limites de sua mãe pessoal para, então, poder perdoá-la, já que, por enquanto, esta é responsabilizada por todos os males que interferem no seu desenvolvimento. E creio que este perdão pode se dar através do reconhecimento do próprio lado acusador e agressor que também existe nela mesma.

Por esses motivos penso que ainda há muito trabalho a fazer, e a terapia poderá ter um valor fundamental para que Camila possa lidar melhor com estas questões que ainda não foram totalmente elaboradas e compreendidas.

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
COWAN, Lyn Christine. A Vítima. In: DOWNING, Christine (org.) Espelhos do Self: As Imagens Arquetípicas que Moldam sua Vida. São Paulo: Cultrix, 1994, p. 216 – 225.
NEUMANN, E. A criança – Estrutura e Dinâmica da Personalidade em Desenvolvimento desde o Início de sua Formação. São Paulo: Cultrix, 1980.
NEUMANN, E. Psicologia Profunda e Nova Ética. São Paulo: Paulus, 1991.
PERERA, Sylvia Brinton. O Complexo de Bode Expiatório. São Paulo: Cultrix, 1991.
SANFORD, John A. Mal, o Lado Sombrio da Realidade. São Paulo: Paulinas, 1988.
ZWEIG, Connie & ABRAMS, Jeremiah (orgs.). Ao Encontro da Sombra: O Potencial Oculto do Lado Escuro da Natureza Humana. São Paulo: Cultrix, 1994.