6 comportamentos que são reflexos de traumas de infância

Se você se identificar com os seis comportamentos citados, pode ter sido profundamente marcado por um trauma de infância que permanece com você. Esteja atento!

Os primeiros anos de nossas vidas são alguns dos mais importantes, porque definem muitos padrões emocionais que seguiremos por toda a vida, como a sensação de sermos bons o suficiente para algo, integração de emoção e intelecto, consciência básica do estado emocional e o sentimento de segurança e coerência como indivíduo.

Quando crescemos num ambiente familiar prejudicial, onde não somos educados da forma certa e no qual o medo e a negligência estão sempre presentes, podemos sofrer traumas de infância que afetam diretamente a trajetória do desenvolvimento do cérebro, causando adaptações diferentes dos circuitos cerebrais do que teríamos num ambiente de proteção, segurança e amor, de acordo com o psiquiatra e especialista em saúde mental, Grant Hilary Brenner. Quanto mais cedo começarem os traumas, mais profundos serão os seus efeitos que nos acompanharão por toda a vida adulta.

Adultos que sofreram traumas na infância podem desenvolver diversas sequelas emocionais e mentais, como transtorno de estresse pós-traumático complexo, ansiedade, dificuldades de relacionamento com outras pessoas e até mesmo dificuldade em enxergar o lado bom da vida.

Abaixo mostramos algumas provas de que aquilo que acontece na infância não fica na infância.

Essa lista de comportamentos adultos que refletem traumas de infância foi elaborada por Brenner em um artigo do Psychologic Today. Confira-a!

1. Sentimento constante de que há algo faltando em si mesmo

Os traumas causam sofrimento e fazem com que as crianças se despeçam de partes importantes de si mesmas para serem capazes de sobreviver. No entanto, mais tarde, elas sentem a falta dessas partes que deixaram ir, e isso provoca a sensação de que há sempre algo faltando nelas, ainda que não saibam o que são.

Segundo Brenner, através da terapia, é possível redescobrir essas partes e até mesmo criá-las novamente.

2. Tendência a evitar relacionamentos, acreditando que está melhor sozinho

É comum pessoas que cresceram com traumas emocionais optarem por se isolar, seja durante o crescimento ou mesmo na vida adulta, como tentativa de se poupar de mais relacionamentos negativos.

No entanto, conexões saudáveis são importantes para o desenvolvimento pessoal e, quando nos privamos disso, tornamos as coisas ainda mais difíceis, fortalecendo a autopercepção negativa, de indignidade e autocondenação.

3. Dificuldade de emoções sobre a própria identidade

Se uma pessoa foi criada numa família que não valorizava as suas emoções, é muito provável que isso a separe da própria identidade, o que dificulta o reconhecimento e a administração das emoções fortes, e pode acabar desenvolvendo um padrão de decisões impulsivas, dificultando a criação de vínculos saudáveis com outras pessoas.

Essas pessoas podem acreditar que não têm emoções, sentir-se incapazes de experimentar todas as emoções da forma certa, e nutrir-se apenas de sentimentos negativos sobre si mesmas e não saberem como receber elogios, agindo desconfiadamente.

4. Perda das memórias sobre a infância

Pessoas que vivem infância traumática normalmente não conseguem se lembrar de muitas partes desse período, costumam se recordar apenas de momentos particularmente vívidos, mas que não são acompanhados de nenhum contexto específico. Frequentemente, não se lembram de quem eram e como viveram durante a infância, e é comum sentirem que a sua infância foi “roubada”, o que compromete a sua identidade adulta.

5. Tendência a se envolver em relacionamentos destrutivos

Muitas vezes, aqueles que cresceram traumatizados envolvem-se em amizades e relacionamentos românticos com companhias prejudiciais. Essas pessoas acabam buscando, ainda que inconscientemente, companheiros que se encaixem em sua identidade traumática, mesmo quando estão tentando melhorar, e atraindo companhias emocionalmente indisponíveis, abusivas ou narcisistas. Conscientemente, querem ser melhores, mas acabam repetindo os padrões indesejáveis.

6. Evitar concentrar-se em si e sentir-se mal quando o faz

Se o trauma de infância é relacionado a pessoas-chave, como pais, irmãos e outras importantes, qualquer memória dessas experiências pode levar a esforços para administrar emoções e experiências dolorosas por meio da fuga de si mesmo, o que causa inúmeros prejuízos emocionais. A conexão interior é um constante lembrete de todas as suas experiências dolorosas, o que faz a pessoa conservar um senso de identidade tóxico e a impede de trabalhar para sua melhora.

Todos esses padrões são sérios e prejudiciais, eles comprometem a sua felicidade e cura interior. Se você se identifica com eles, saiba que não precisa enfrentar tudo sozinho nem ficar preso a nada disso.

Procure ajuda profissional para começar a trabalhar em si mesmo e, aos poucos, curar-se e construir uma realidade melhor para si.

Psychologic Today.

 

Novo tipo de inteligência é descoberto por pesquisador brasileiro

Um pesquisador e neurocientista luso-brasileiro descobriu um novo tipo de inteligência, incapaz de ser registrado pelos testes psicológicos: o DWRI (Development of wide regions of intelectual interference). Identificado por Fabiano de Abreu, o novo conceito foi publicado recentemente pela revista International Journal of Development Research.

A busca por um conceito inovador, que desse conta de medir a capacidade de desenvolver todos os tipos de inteligência, foi o ponto de partida da pesquisa de Fabiano. Após muitas buscas, ele chegou ao DWRI, que, segundo o neurocientista, deriva do patrimônio genético da pessoa, ou seja, é hereditária, surgida já na formação embrionária.

Para Abreu, quem tem uma inteligência DWRI consegue “desenvolver todos os tipos de inteligência, englobando o seu patrimônio genético, os seus interesses e as suas experiências de vida que, no final, resultam numa inteligência global e não apenas direcionada”.

Algumas características da inteligência DWRI

Em sua nota à imprensa, Fabiano de Abreu começa por explicar o que não é a DWRI: habilidades verbais, numéricas, lógicas e espaciais que são normalmente avaliadas por um teste de QI. Isso significa que uma pessoa com o QI alto nem sempre possui DWRI, podendo apresentar apenas inteligências específicas para determinadas áreas.

Na métrica dos testes psicológicos, o que se levanta em conta, afirma o pesquisador, são dois tipos de inteligência: a lógica e a cognitiva, duas realidades distintas que trabalham em consonância. A DWRI, que é anterior, posto que embrionária, “é responsável pelo imaginário, entendimento do que está à nossa volta, a formação da personalidade e a condição da inteligência”, diz a nota.

Como consequência, pessoas que possuem inteligência DWRI são normalmente mais ponderadas e equilibradas e não cedem ao egocentrismo ou narcisismo. Ou, nas palavras do pesquisador, são “humildes mesmo estando plenamente conscientes das suas capacidades, o que se deve, sobretudo, pela noção de que ser mais humilde acarreta mais vantagens, incluindo para o próprio”.

 

 

Aritigo: Como discutir e não brigar: 9 regras para crescer e aprender com as discussões!

Atire a primeira pedra quem nunca teve uma discussão no seu relacionamento amoroso. É consenso entre os especialistas e da sabedoria popular: discutir é mais do que normal, é também saudável para o bem-estar do casal.

Porém, obviamente, as DRs não podem virar uma rotina! Além disso, é importante dizer o que se pensa sem ofender ou perder a cabeça. Nenhuma relação sobrevive à dureza das palavras ditas no calor de uma discussão exaltada. Portanto, fique esperto e siga as nossas 9 regrinhas indispensáveis para usar numa DR construtiva e evitar crises com o seu amor!

1. Nunca ACUSE

Nunca comece uma discussão acusando o seu amor de ter feito algo errado. Não tem nada mais desagradável do que cobranças. Afinal de contas, qual das duas frases soa melhor no meio de uma discussão: “Me sinto muito mal quando você não me inclui nos seus programas” ou “Você é muito egoísta”.

Se você escolheu a primeira opção, parabéns! Você já entendeu perfeitamente o que é uma discussão construtiva. Se não, vamos tentar ser mais claras: não seja agressivo ao expressar seus sentimentos. Respire fundo e expresse seus mais profundos incômodos, com amor.

2. Escolher bem o MOMENTO de começar a DR

Se você está há dias pensando em como dizer algo que está te incomodando, aguente um pouquinho mais. Não adianta nada começar a discutir no meio de um engarrafamento logo de manhã cedo indo para o trabalho. O importante é vocês dois estarem relaxados e que você tenha a atenção do outro. Portanto, espere até o fim do dia. Exercite a paciência, saiba esperar o momento ideal!

3.  DR em público JAMAIS!

Já diz o ditado popular que “roupa suja de se lava em casa”. É a mais pura verdade! Para que envolver pessoas que não têm nada a ver com a intimidade de vocês nos seus problemas? Seja inteligente. Prefira a intimidade do lar ou um lugar reservado onde somente vocês dois possam escutar a voz um do outro sem precisar se exaltar.

4. Aprenda a ESCUTAR

Você pode até começar a discussão e introduzir o assunto. Mas deixe o outro falar como se sente também e, principalmente, escute o seu amor. Não adianta nada bombardeá-lo com um monte de reclamações e não escutar as razões dele.

5. Pense bem ANTES de começar a DR

Mais importante do que pensar no que você gostaria de dizer, é fazer uma reflexão antes. Será que vale a pena uma discussão por isso? Pense bem se compensa mesmo, você tocar em determinado assunto, provocar um enfrentamento e o consequente desgaste. Só comece se tiver certeza de que é o último recurso para resolver aquela pendência.

6. Aprenda a pedir DESCULPAS

Lembra daquela música da Rita Lee? “Desculpe o auê, eu não queria magoar você…”, pois é, lembre-se dela de vez em quando e aprenda também a pedir desculpas. Todo mundo se equivoca. O importante é reconhecer e fazer o mea culpa em nome da paz e do amor.

7. BOM HUMOR sempre

Uma das melhores maneiras de terminar uma discussão é dando boas risadas! Isso nem sempre é possível, mas de vez em quando acontece algo hilário e rir é inevitável! Então, aproveite e pare por aí. Aprenda a preservar o bom humor mesmo quando a temperatura estiver fervendo e o seu sangue beeeeem quente!

8.Golpe baixo está PROIBIDO

Se vocês estão discutindo sobre um problema entre vocês dois, não há razão de mencionar o fato dele ter alguma diferença com o pai ou a mãe. O problema é entre vocês dois, portanto, não tente atingi-lo mencionando outros problemas existentes. Você só vai piorar as coisas e alimentar a raiva dele.

9. Nem VENCEDORES, nem VENCIDOS

É verdade que quando um não quer, dois não brigam. E, muitas vezes, a única maneira de terminar uma discussão é cedendo. Não vá até as últimas consequências apenas para dizer “viu só?”. Deixe claro seu ponto de vista, mas se perceber que o outro não está ouvindo, melhor deixar para outro momento e encerrar por aí a discussão. Com certeza, ele vai pensar bastante no assunto enquanto você não estiver falando e ficará mais fácil para ele dar o braço a torcer do que se você ficar insistindo para provar que sempre tem a razão.

Com essas regrinhas esperamos que você consiga dar o seu recado sem comprometer a sua relação. Discutir faz bem para o casal, mas é importante ter critérios para que esse diálogo duro e tenso evolua. Lembre-se de que o melhor da briga vem depois: quando vocês fazem as pazes. E isso só é possível se a discussão servir para expor seus sentimentos sem ofender o seu amor.

 

Artigo: Banalização das doenças mentais dificulta diagnóstico e tratamento

Banalização das doenças mentais dificulta diagnóstico e tratamento

Diagnosticar a si mesmo e aos outros é a principal forma de banalizar os sofrimentos causados pelos transtornos mentais, diz a psicóloga Valéria Barbieri

Tratar como comum, trivial, as experiências vividas por quem sofre com doenças mentais é uma forma de banalização desses transtornos. Um outro exemplo é ouvir uma pessoa transitoriamente triste dizer que “está com depressão”. E estas situações contribuem para a desinformação e preconceito dos transtornos mentais, alerta a professora do Departamento de Psicologia da Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras de Ribeirão Preto (FFCLRP) da USP, Valéria Barbieri.

“A banalização dos transtornos mentais é uma forma de apropriação pela população do conhecimento produzido a respeito deles”, explica a professora. Ao mesmo tempo que o acesso à informação sobre o tema é positivo, corre-se o “risco de esvaziar o significado do diagnóstico dos transtornos”, avalia Valéria sobre o lado negativo de tornar banal o  conhecimento.

Aspecto social e diagnóstico

Para a psicóloga, outro fator relevante para analisar na banalização dos transtornos mentais pela sociedade é a exigência de que a pessoa esteja sempre em sua “melhor forma”. Este fato, segundo Valéria, transforma oscilações emocionais naturais, como a angústia e a ansiedade, em problemas que precisam ser erradicados. Muito ao contrário, esclarece, esses sentimentos só constituem transtornos mentais quando se tornam incapacitantes para a pessoa durante um longo período de tempo.

Para entender a banalização, ao contrário da pessoa saudável que se diz erroneamente deprimida por um sofrimento circunstancial, que vai desaparecer com o tempo, a professora cita outra pessoa, esta sim diagnosticada com transtorno depressivo e com sintomas mais graves e duradouros. Nesse caso, a pessoa saudável é incapaz de compreender a intensidade e permanência do sofrimento do outro, “já que a depressão que ela diz ter experimentado não foi assim”. A consequência da banalização dos transtornos mentais, nesses casos, é o afastamento, já que “a pessoa com transtorno perde cada vez mais esperança de ser compreendida e fica isolada”.

A principal forma de banalização das doenças psicológicas, no entanto, é a atribuição de diagnóstico a si mesmo e aos outros, afirma a professora. O problema é que, na maioria das vezes, o indivíduo em sofrimento não consegue acessar informações sobre si mesmo. Segundo Valéria, estas são informações inconscientes que somente são obtidas através de entrevistas profundas e testes psicológicos sofisticados, realizados por profissionais com formação especial e com experiência. “Saúde mental, se considerar apenas uma característica ou um sintoma não quer dizer praticamente nada em termos da pessoa ter uma determinada doença ou um transtorno”, afirma a psicóloga.

Enquanto o menosprezo social atua sobre as doenças mentais, o sofrimento cresce. Segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS), a principal causa de incapacidade no mundo é a depressão, com uma estimativa de mais de 300 milhões de doentes. Além disso, cerca de 60 milhões de pessoas no mundo sofrem com transtorno afetivo bipolar. Já a esquizofrenia afeta em torno de 23 milhões de pessoas em todo o planeta.

Experiência com a banalização dos transtornos mentais

Vítima da banalização das doenças mentais, a estudante de Jornalismo Anna Clara Carvalho, de 21 anos, sofre com Transtorno de Ansiedade Generalizada (TAG), doença que integra os transtornos ansiosos que atingem 9,3% da população brasileira, segundo o relatório Depressão e outros distúrbios mentais comuns: estimativas globais de saúde, divulgado pela OMS em 2017.

Para Anna Clara, a banalização de sua doença impede as pessoas de perceberem seu real estado de ansiedade (natural ou ansiedade fora do normal) e até mesmo quando está apenas séria. “Podemos estar ansiosos para uma viagem, para uma festa ou para um trabalho. E isso é normal das pessoas, do ser humano. O problema é quando isso começa a ser por qualquer coisa e em todo o tempo do seu dia”, diz Anna Clara.

E o problema se agrava com a incompreensão que a jovem percebe nas pessoas com quem se relaciona. “Elas sempre falam que estão ansiosas, mas quando nós falamos que estamos tendo uma crise de ansiedade ou estamos passando por um momento mais difícil nesse sentido, elas acham que vai passar ou que é só um nervoso por alguma coisa.”

Para Anna Clara, a banalização da doença mental atrapalha o entendimento do transtorno e também a busca por tratamento. “O maior problema da ansiedade é quando as pessoas começam a enxergá-la como um sentimento qualquer, que não precisa ser tratada; não tem valor e não precisa ser encarado com seriedade.”

Estigma e desinformação

Segundo a professora Valéria, existe ainda outra face da estigmatização dos transtornos mentais, que é a glamourização e a romantização. É nas produções cinematográficas, séries de televisão e mídias sociais que esta face toma forma, através da romantização da questão. “O personagem que sofre de um transtorno mental é curado por outro que se apaixona por ele.” Para a professora, “esse tipo de imagem transmitida contribui para a desinformação” de doenças reais que devem ser tratadas com psicoterapia e, em alguns casos, com auxílio de medicação.

JORNAL DA USP

 

A exaustão emocional é bem pior do que o cansaço físico

É mais fácil repousar um corpo dolorido do que acalmar uma alma exausta.

A vida nunca foi fácil, mas parece que, ultimamente, as coisas pioraram bastante. Existem mais pessoas, mais lugares, mais histórias tendo que conviver juntas, mas as relações compassadamente se fragilizam. Há mais estresse, mais horas de trabalho e isso tudo acaba exaurindo as energias de qualquer um.

A vida moderna nos obriga a passar grande parte de nosso tempo trabalhando. Sob a ótica vigente, de que quanto mais se consome mais gente se é, torna-se necessário um consumismo desenfreado, para que nos vejam como alguém que existe de fato. Junto com o consumismo, caminha a valorização das aparências, da ostentação de grifes, tanquinhos e dentes brancos. E haja dinheiro para poder lapidar o corpo, à imagem e semelhança do estereótipo midiático da perfeição.

Passamos a nos preocupar tanto com o que está lá fora, que acabamos nos esquecendo de ouvir o ritmo de nossa alma, de nosso coração.

A busca frenética pelo exterior de contos de fadas nos torna descuidados com os sentimentos, com a essência, com tudo o que realmente vale a pena. Temos que ser bonitos, magros, felizes e ter um salário pomposo. Temos que engolir o choro, pois fraqueza é feio. Temos que ser fortes o tempo todo, mas isso é impossível, ou seja, sofremos todos. Em silêncio.

É preciso, portanto, parar, demorar-se, ouvir o silêncio, pois é assim que conseguimos prestar atenção em nós mesmos. É preciso estar atento aos sinais que nosso corpo manda, às vezes de forma bem discreta, para que o volume das pendências emocionais não cresça e sufoque nossa força, nossas esperanças, nossa fé. É preciso prestar atenção nas dores do corpo, sim, mas sem negligenciar as dores de nossa alma.

A exaustão emocional é mais massacrante do que o cansaço físico, porque, na maioria das vezes, temos vergonha de admitir que não vamos dar conta, que não estamos aguentando, que estamos fracos.

Muitas vezes, a gente tem vergonha de chorar. Mas não deveríamos, não poderíamos. Como se vê, é mais fácil repousar um corpo dolorido do que acalmar uma alma exausta

Psicólogos identificam um novo tipo de extrovertido e você pode conhecer alguém assim

Extrovertido, introvertido ou ambivertido – pessoas que são introvertidas extrovertidas ao mesmo tempo. Podemos ser ou transitar por essas formas de nos comunicar com o mundo lá fora, mas se você há muito se considera uma pessoa que mistura a introversão com a extroversão, existe uma pequena possibilidade de você ter se identificado incorretamente.

Extrovertido, introvertido, ambivertido: pesquisadores encontram outra denominação para comportamentos.

Novas descobertas de um estudo de psicologia liderado por Jason Huang, da Michigan State University, sugerem que existe outro tipo de personalidade chamado de “extrovertido de outro contingente“.

As pessoas que se enquadram nessa categoria só expressam sua natureza extrovertida quando estão em ambientes nos quais se sentem confortáveis ​​e entre pessoas que consideram amigáveis, disseram os psicólogos em artigo a ser publicado no Journal of Individual Differences.

“Conceitualizamos a extroversão do outro contingente como uma diferença individual na tendência de elevar a extroversão de um estado ao interagir com outras pessoas amigáveis”, observaram os pesquisadores.

A equipe teve que demonstrar a teoria em um ambiente científico, então convidou 83 alunos de graduação dos Estados Unidos para participar de um experimento de três semanas.

Nele, os participantes tiveram que revelar as características de suas interações sociais mais recentes duas vezes por dia.

Em suas pesquisas, os alunos deveriam responder a três perguntas: “Quão amigável era a outra pessoa ou grupo com quem você estava interagindo ?,” “Quão disposta a se envolver na conversa era a outra pessoa ou grupo?,” e “Quão sociável era a outra pessoa ou grupo com quem você estava interagindo?”.

As respostas foram marcadas em uma escala de sete pontos, sendo um “nem um pouco” e sete “extremamente”. Os participantes então tiveram que avaliar seu nível de extroversão durante essas interações sociais.

O que era previsível era que a maioria dos entrevistados expressaria elevada extroversão ao conhecer pessoas que consideravam amigáveis.

O resultado mais convincente foi que alguns participantes, os extrovertidos do outro contingente, foram mais influenciados pelas dicas sociais de outros e apenas reagiram com um elevado senso de extroversão em ambientes “mais amigáveis”.

“Os resultados indicam que, apesar de uma associação positiva geral entre a simpatia dos outros e a extroversão de um estado, os indivíduos diferem no grau em que manifestam extroversão de estado em resposta à amizade dos outros, permitindo-nos modelar essa diferença individual como extroversão contingente ”, concluíram os pesquisadores.

Aquele amigo aparentemente quieto que fica animado quando está perto de você? Eles podem ser um extrovertido contingente.

Psiconeuroimunologia: emoções e suas implicações no sistema imunológico

Pequena Introdução

Durante muitos anos, a dualidade corpo mente vem sendo alvo de discussão no âmbito acadêmico. Nos últimos vinte anos, pesquisas e experimentos envolvendo o sistema imunológico e a sua relação com aspectos psicossoais, suscitaram uma concepção diferente que integrasse ambos os sistemas.

As pesquisas sobre interferência do Sistema Nervoso Central (SNC) e a sua relação com o Sistema Imunológico tiveram início nos anos 70. No entanto, apenas em meados dos anos 80, suas contribuições sobre funcionamento do organismo tornaram-se relevantes.

O psicólogo Robert Ader, juntamente com o imunologista Nicholas Cohen, administraram uma droga imunossupressora associada à água adoçada com sacarina a ratos, resultando no condicionamento do sistema imunológico ao sabor da sacarina. Assim, quando a água passou a ser administrada sem a substância, o efeito produzido foi o mesmo. Este importante experimento marcou a criação da psiconeuroimunologia (PNI).

A PNI é uma ciência que se dedica ao estudo do impacto de aspectos emocionais sobre a imunidade do indivíduo. Esta abordagem propõe a interação entre o sistema nervoso central, o imunológico e o endócrino; e suas implicações sobre a capacidade do organismo em manter-se saudável após eventos estressores.

Atualmente, esta perspectiva tem sido utilizada para entender como eventos estressores (ex. desemprego, divórcio ou morte de ente querido), associados a características e estados psicológicos (ex. humor triste, isolamento social, ansiedade), repercutem na resposta do sistema imunológico e à susceptibilidade à doença.

O desencadear da sintomatologia de algumas doenças autoimunes tem sido relacionada ao estresse. Pesquisas na área da saúde relacionam a atividade inflamatória dos sintomas e sinais das doenças reumáticas auto-imunes, a exemplo do lúpus erimatoso sistêmico e artrite reumatóide, às substâncias produzidas pelas glândulas suprarrenais, como cortisol e adrenalina.

Uma evidência empírica desta relação foi um estudo realizado com um grupo de pacientes reumáticos. No primeiro, os sujeitos apresentavam uma predisposição genética para artrite reumatóide; 20% eram portadores da doença e os 80% restantes não tinham anticorpos característicos de artrite reumatóide (IgH) ou apresentavam autoanticorpos envolvidos para o desenvolvimento da doença; já no segundo, os indivíduos eram normais.

No primeiro grupo os sujeitos com autoanticorpos que estavam em condições emocionais favoráveis (isto é, sem ansiedade, humor deprimido, satisfeitos com o trabalho e com suas ralações interpessoais), não manifestaram os sintomas. Comprovando que o bem estar psicológico funciona como uma proteção a um marcador biológico.

Pode-se inferir, portanto, que sujeitos com perfil mais introvertido, pessimista, com pouco suporte social (contatos interpessoais) e estratégias de enfretamento mais repressivas, evitantes e/ou de negação, tendem a apresentar mais sintomas físicos, em decorrência da alteração do sistema nervoso resultar em imunossupressão (menor eficácia do sistema imunológico).

Tendo em vista que esta abordagem integra os diferentes sistemas e sua sensibilidade às emoções, a terapêutica empregada no curso do tratamento deve ser multidisciplinar. Logo, a psicoterapia oferece o suporte necessário ao sujeito para resignificar a vivência de eventos estressores, a fim de aumentar os seus recursos de enfretamento e possibilitar um efeito positivo e favorável nos campos psíquico e físico.

Bacharela em Psicologia e em formação de Psicólogo pela Escola Bahiana de Medicina e Saúde Pública. Especialista em Terapia Cognitivo-Comportamental, pelo Instituto WP – Centro de Psicoterapia Cognitivo-Comportamental. Membro da Federação Brasileira de Terapias Cognitivas (FBTC). Especialista em Família: relações familiares e contextos sociais pela Universidade Católica do Salvador (Ucsal).

Psiconeuroimunologia – Relação entre Cérebro e Sistema Imunológico

O termo Psiconeuroimunologia foi introduzido por Robert Ader, em 1981, para definir o estudo da interação entre o sistema nervoso central (SNC) e o sistema imunológico. Graças aos avanços nas áreas da biologia celular e molecular, genética e neurociência tem sido possível cada vez mais compreender as ligações entre o cérebro, comportamento e o sistema imunológico, e as implicações que estas ligações podem ter ao nível da nossa saúde.

Varias décadas de investigação científica têm demonstrado que o funcionamento entre estes sistemas é integrado e interdependente e que stressores físicos e psicossociais alteram a resposta do sistema imunológico, resultando no aumento da suscetibilidade e resistência às doenças auto-imunes, inflamatórias, infeciosas, alérgicas e virais.

A exposição contínua a estímulos e acontecimentos stressantes contribuem para um estado de exaustão do organismo, colocando em causa o seu funcionamento equilibrado e integrado e comprometendo as ligações entre cérebro, hormonas e sistema imunológico.

A dificuldade crescente em lidar com o stress manifesta-se na diminuição da competência e capacidade de defender o corpo de estados de doença, que podem vir a manifestar-se nas variadas formas e graus de intensidade.

Se o stress é um fator que pode inibir a resposta imunológica, faz todo o sentido utilizar estratégias de gestão de stress e ansiedade para contrapor e restaurar o equilíbrio entre sistemas. Na realidade, estudos têm revelado que a prática de relaxamento regular pode ajudar a aumentar o número de células NK (Natural Killer Cells, responsáveis pela defesa do organismo no combate a infeções virais e células tumorais) e células T (um grupo de glóbulos brancos que têm um papel primordial no processo de imunidade celular).

A psicoterapia apresenta assim vantagens evidentes no processo de alteração das respostas aos mais variados estímulos stressantes, assim como, providencia o apoio necessário à compreensão das causas subjacentes que motivam e perpetuam essas mesmas respostas.

O que é ´coping´?

Lutar, competir com sucesso ou em igualdade de condições: esta é a tradução literal do verbo inglês “to cope”, cujo significado também pode ser descrito como a ação de “lidar adequadamente com uma situação”, superando as dificuldades ou limites que essa situação apresenta.

Em Psicologia, mais precisamente na Psiconeuroimunologia – campo científico interdisciplinar que estuda o ser humano como unidade indissolúvel de corpo e mente –, o coping é pesquisado, sobretudo, na relação com o estresse, sendo definido como “tentativa ou empenho para lidar com exigências externas (do ambiente) ou internas (do próprio sujeito) percebidas como sobrecarregando ou excedendo os recursos da pessoa.”(Folkman e Lazarus)

Acontecimentos estressantes acontecem o tempo todo em nossas vidas: são pequenas contrariedades cotidianas, como a longa fila no banco, o fluxo de transito interrompido perto de casa, a nota baixa do filho na escola etc. Também estressantes são acontecimentos positivos, como o encontro, na noite de carnaval, de um parceiro amoroso, a notícia da aprovação de seu filho no vestibular, uma relação sexual de entrega intensa e ardente, um elogio inesperado do companheiro de trabalho.

Esses eventos estressantes suscitam um coping.

Não há uma maneira padrão e coletiva de “cope”. Os estudos apontam duas categorias de estratégias de coping básicas: as voltadas para a resolução do problema e as orientadas para a regulação da emoção.

Os moradores de um edifício que desabou – ou uma coletividade atacada por armas militares ou assaltantes – vivem um estresse traumático. Nele se inscrevem as três características básicas do nível mais grave de acontecimento estressante: é incontrolável, imprevisível e ambíguo. As estratégias de coping para lidar com esse estresse traumático variam de indivíduo para indivíduo, mas é possível identificar os padrões mencionados. Assim, por exemplo, uma mulher diz que não lhe é suficiente chorar a perda de seus bens, ela precisa colocar todo seu esforço para obter na justiça a condenação do responsável pela construção do edifício (resolução do problema). Uma outra estratégia, voltada para a mudança da reação emocional, é a do pai que tenta cuidar mais da filha que sobreviveu à morte do irmão mais velho durante um assalto – ou usa a revolta, muitas vezes apenas debilitante, para se engajar em um movimento coletivo de protesto contra a violência. Ele procura outra emoção diferente da perda, sem negá-la, mas superando-a pela mudança emocional e pela ação.

Um outro modo de analisar o coping é pela categoria de passivo ou ativo.

O coping passivo é o que envolve a “evitação” do problema ou a redução da tensão por ele provocada. Um exemplo é o consumo intenso do álcool ou de comida para reduzir a ansiedade diante do acontecimento estressante. O coping ativo é o que compreende as tentativas para lidar diretamente com o evento gerador de estresse. No caso do desabamento do edifício, acontece quando uma pessoa organiza uma cooperativa para distribuição de alimentos e roupas para os moradores desabrigados; ou procura se unir a outras e mover uma ação reparadora.

Não proponho aqui estabelecer regras de comportamento ou uma tábua de valores (isso é bom, ou certo ou errado). Tentei apenas esclarecer a existência de reações emocionais e comportamentais que constituem estratégias para lidar com os problemas e os fatores de estresse presentes na relação do indivíduo com o mundo – quer no nível da vida cotidiana, no plano das tragédias imprevisíveis, ou de doenças, perdas e crises/mudanças graves. Na medida em que a vida contemporânea se caracteriza cada vez mais como instável e exige mais recursos pessoais para lidar com as mudanças e imprevisibilidades, é natural que a ciência médica e psicológica se volte para a pesquisa dos modos de coping. Médicos e psicólogos se ocupam da análise da eficácia dos modos de coping e procuram terapias que facilitem o desenvolvimento de variedades de coping que se constituam como recursos valiosos para indivíduos e grupos.

Luiz Fux disse hoje, no discurso de reabertura do Judiciário, que ficou “estarrecido com o pronunciamento de um presidente do TJ minimizando as dores desse flagelo”, em referência às vítimas da pandemia de Covid.

Gaslighting: como identificar a manipulação psicológica em relacionamentos?

Quem frequentemente ouve frases como “Você está ficando louca?” ou “Você está exagerando” durante uma discussão com o parceiro provavelmente está sofrendo de um tipo de manipulação psicológica, conhecida como gaslighting.

O termo ainda não tem tradução para o português, mas é definido pelos especialistas como uma forma de violência psicológica sutil, na qual o abusador mente, distorce a realidade e sempre omite informações. O objetivo é fazer com que a vítima duvide de sua memória e até da sua sanidade mental.

“No gaslighting um dos parceiros cria situações para que o outro sinta insegurança, medo ao extremo e desestabilização emocional, em prol do próprio benefício. Esse comportamento faz com que a vítima duvide de suas capacidades mentais e percepção da realidade, o que dificulta o rompimento do vínculo abusivo”, explica Natalia Araújo, psicóloga do Gender Group do IPq-HCFMUSP (Instituto de Psiquiatria do Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo).

O termo surgiu após o filme À Meia-luz, ou Gaslight (1944), que contava a história de um homem que fez de tudo para convencer a esposa que ela estava perdendo a razão. A intenção era ficar com sua fortuna. Para isso, realizava manipulações frequentes até que ela questionasse a sua sanidade mental.

O gaslighting é mais comum acontecer com as mulheres, mas também é utilizado por qualquer pessoa e em outros tipos de relacionamentos, com o objetivo de desestabilizar a saúde mental.

De acordo com a psicóloga Natália Marques, atuante em área clínica com violência contra a mulher e mestranda em psicologia da saúde pela Universidade Metodista de São Paulo, as mulheres são mais afetadas principalmente por conta do machismo e do patriarcado. “Nesse sistema, as mulheres carregam o estigma de ‘loucas, histéricas e exageradas’, mas muitas vezes estão simplesmente contestando os homens e não querem seguir as normas e padrões sociais impostos”, diz. Segundo ela, fazer as mulheres acreditarem que são loucas as enfraquece na sociedade. “É uma violência que envolve poder”.

Como identificar o gaslighting?

Os sinais do gaslighting são muito sutis e a vítima encontra dificuldade de perceber o que está acontecendo. Isso porque ela está envolvida emocionalmente com o abusador e há afeto e sentimento pelo parceiro.

No entanto, de acordo com os especialistas, é importante se atentar para algumas situações recorrentes. “Geralmente, essa mulher tem medo de errar ao decidir algo sozinha. Passa a duvidar de si mesma a todo instante. Além disso, acredita que é emotiva demais ou se sente confusa sobre seus próprios pensamentos e sentimentos”, afirma Araújo.

Também é comum que comece a pedir desculpas constantemente e omita informações sobre o relacionamento para os familiares e amigos. Na maioria das vezes, ela se sente desanimada e justifica os comportamentos abusivos do parceiro, pois acha que a culpa é sempre dela. Frequentemente, a pessoa sente que tem algo errado no relacionamento, mas não consegue identificar esses sentimentos.

Já o abusador, tem comportamentos bastante semelhantes —mente com frequência, nega informações (mesmo que apresentem provas), joga a culpa na vítima, fala que a pessoa tem um gênio difícil para amigos e familiares, faz chantagem emocional e age para que a parceira duvide de si mesma constantemente.

Outras formas de abuso

O gaslighting ocorre de forma isolada ou em paralelo com outros tipos de abusos e situações. Um parceiro infiel, por exemplo, usa o gaslighting para que a mulher acredite que está delirando ou inventando situações ao questionar a traição.

Foi o que aconteceu com a influenciadora digital, Rayalle Lacerda, 27. A jovem foi traída pelo ex-namorado, que negou constantemente a traição e fez com que ela duvidasse de si mesma. “Ele me fazia acreditar que eu estava vendo coisas demais. Fui traída e meu companheiro fez de tudo para que eu duvidasse do que estava acontecendo. No fim, ele terminou comigo e disse que eu estava louca. Fiquei bastante tempo traumatizada e me perguntando se o problema era comigo, se eu realmente estava paranoica, mesmo tendo provas da infidelidade”.

Além disso, o gaslighting pode ser uma estratégia usada pelo abusador para desqualificar a vítima de uma violência sexual ou agressão física. Nesses casos, ele convence a mulher de que nada aconteceu após agredi-la ou cometer um estupro.

“É comum que o parceiro, após a violência sexual, afirme que a mulher estava sonhando, que não aconteceu daquela maneira ou até mesmo que ela pediu por aquilo, quando na verdade se tratava de um estupro. O abusador tenta convencer a vítima de que ela é agressiva, confusa, pouco confiável, difícil de ser tolerada, usando suas vulnerabilidades contra ela”, explica Marques.

Consequências para autoestima e saúde mental

O gaslighting acontece nos relacionamentos de forma silenciosa, com pequenas acusações e colocando a vítima em situações perturbadoras, com a intenção de minar a autoconfiança e a autoestima.

“As manipulações começam aos poucos, mas, ao ganhar a confiança da vítima, tende a aumentar. É comum que, quando questionado sobre o comportamento tóxico, o abusador negue as suas reais intenções, fazendo com que a pessoa manipulada acredite que é para o seu próprio bem. No gaslighting, as partes mais afetadas estão relacionadas aos aspectos psicológicos e emocionais”, explica Araújo.

Geralmente, a vítima se torna dependente do olhar do outro sobre situações cotidianas, passa a acreditar que sua realidade e ponto de vista são duvidosos. Por isso, na maioria das vezes, o gaslighting gera uma instabilidade emocional que desencadeia ansiedade, depressão, dependência, baixa autoestima, transtorno do pânico e estresse pós-traumático.

De acordo com Fernando Fernandes, psiquiatra do IPq-HCFMUSP, os problemas no relacionamento estão entre os desencadeantes comuns da depressão. “Um relacionamento abusivo pode ser um fator importante para a perpetuação dos sintomas depressivos. Quando há ainda essa manipulação, o relacionamento fica desigual e uma das partes perde a segurança e a autoestima”, afirma.

O especialista também explica que a ansiedade, nesses casos, se torna comum, porque a pessoa não sabe o que esperar do parceiro. “Os sintomas depressivos também causam um isolamento social. E a ansiedade ocorre devido ao fato de a pessoa não saber o que esperar do outro, fica sempre em um estado de tensão constante”.

“Até hoje convivo com sequelas”

A história de Mariana*, 33, demonstra exatamente como o gaslighting afeta a rotina da vítima e traz consequências para a autoestima e a saúde física e mental.

Ela conta que conheceu seu ex-namorado em 2005 e conviveu com ele por cerca de um ano e meio. Mas durante esse período foram seis separações. “Ocorreram diversas histórias de manipulações psicológicas. Ele trabalhava como motorista de aplicativos e um dia chegou com uma pulseira de uma balada. Quando questionei, ele mentiu e negou, mesmo com essa prova, e ainda jogou a culpa em mim pela briga”, diz.

Mariana também viu que ele conversava com outras mulheres pelas redes sociais e foi chamada de louca e insegura durante as discussões. “Meu ex sempre afirmava que eu não gostava dele e não confiava. Porém, como eu era dependente dele emocionalmente, sempre acabava voltando, pois achava que a culpa era minha”, diz.

Para se livrar dessa situação abusiva, começou a guardar provas como os extratos de pagamentos de baladas. “Esse relacionamento afetou a minha autoestima e tive depressão. Queria me matar, comecei a beber todos os dias, me cortava com vidros e chorava muito. Cheguei a perder o emprego. Até hoje convivo com as sequelas desse relacionamento e me abalo ao relembrar o que passei”.

Como se livrar de um relacionamento abusivo?

O primeiro passo é reconhecer os sinais do gaslighting no relacionamento. Não é algo fácil, mas o ideal é se afastar do abusador o quanto antes. Para isso, é fundamental contar com o apoio de pessoas próximas, que estão dispostas a ajudar.

Outro passo importante é buscar ajuda especializada. “É necessário fazer psicoterapia para sair dessa relação abusiva e entender que se está sofrendo violência. Após o rompimento, é preciso lidar com os traumas que ficaram, ressignificar e fortalecer a autoestima”, afirma Marques.

Conseguir se libertar de um relacionamento tóxico e da manipulação psicológica leva tempo, pois é preciso retomar a autoconfiança, o amor-próprio e reconstruir formas mais saudáveis de se relacionar.

De acordo com Fernandes, os relacionamentos tóxicos e abusivos têm duas partes: uma pessoa que tem habilidades de manipular e que exerce um determinado poder de controlar o comportamento e o pensamento do outro; enquanto a outra está mais vulnerável a isso. “São personalidades que se ‘encaixam’. Por isso, muitas vezes, é difícil se livrar dessa situação. É importante fortalecer a fragilidade da vítima e trabalhar essa vulnerabilidade para fechar esse ciclo de abuso com ajuda de profissionais e de familiares”, diz o psiquiatra.

*O nome da personagem foi alterado para preservar sua identidade

Tipos

A violência contra a mulher não é só física. A Lei Maria da Penha (Lei nº11.340/2006) classifica os tipos de abuso contra a mulher nas seguintes categorias:

  • Violência patrimonial,
  • Violência sexual,
  • Violência física,
  • Violência moral,
  • Violência psicológica.

Essas últimas são as formas de violência menos visíveis e por isso difíceis de serem detectadas. A legislação considera como violência psicológica qualquer conduta que cause à mulher dano emocional e diminuição da autoestima ou que lhe prejudique e perturbe seu pleno desenvolvimento ou que vise a degradar ou controlar suas ações, comportamentos, crenças e decisões.

Tal ato de violência pode ocorrer mediante ameaça, constrangimento, humilhação, manipulação, isolamento, vigilância constante, perseguição, insulto, chantagem, ridicularização, exploração e limitação do direito de ir e vir.

Já a violência moral é entendida como qualquer conduta que configure calúnia, difamação ou injúria. São ações que criam um ambiente de medo e insegurança e de incapacidade de tomar decisões sobre a própria vida, inclusive de se defender e sair desse relacionamento abusivo

Sinais que irão auxiliar a identificar o gaslighting

É muito importante prestar atenção nos sinais, é necessário prestar atenção se dúvidas, medos e maus sentimentos passam a fazer parte do dia a dia com mais frequência, tais como:

  • Medo de falhar ao agir sozinha;
  • Perguntar a sim mesma se está agindo de maneira emotiva;
  • Não se sentir feliz, mesmo percebendo que as coisas andam, aparentemente bem;
  • Estar sempre se desculpando ao companheiro;
  • Estar constantemente justificando ações dele aos amigos e família;
  • Começar a mentir para si mesma, para amigos e família que as coisas andam bem, criando uma falsa ilusão;
  • Passar a esconder informações da relação dos demais para não ter que se explicar;
  • Questionar-se sobre se realmente é suficientemente boa no que faz;
  • Sentir-se confusa e com dúvidas sobre si mesma a todo o momento;
  • Acreditar ser responsável pelos problemas da relação.

Como devo agir se eu identificar os sinais de gaslighting?

  • Afaste-se. Esse tipo de manipulação é um abuso mental e emocional com o propósito único de controlar e ter poder sobre você. 
  • Converse com alguém íntimo sobre como fugir dessa situação. Diga para alguém que está sendo manipulado pelo seu parceiro e que precisa sair desse relacionamento.
  • Entre em contato com alguma rede de apoio às vítimas de violência doméstica. Eles saberão como orientá-lo e passarão outros contatos que podem ajudar.
  • Dê ouvidos a si mesma. Essa certamente será uma das coisas mais difíceis durante a sua recuperação e também a mais importante. Depois de ser constantemente manipulado, é normal que você simplesmente passe a ignorar sua intuição e ela desapareça, mas isso é reversível.
  • Cuide de você. Comece com coisas pequenas, como dar atenção ao seu corpo; obedeça-o se sentir fome ou sono e diga para si mesmo que pode confiar em si mesma para saber quando precisar suprir suas necessidades básicas, como sono, fome e higiene. Isso pode parecer pouco, mas é um grande passo para sua autoconfiança,
  • Quando precisar tomar uma decisão, não se sinta pressionada, nem dê esse poder para os outros. Diga para si mesma que respeitará seu tempo e que irá usá-lo par analisar todas as opções antes de tomar uma decisão.
  • Procure ajuda profissional qualificada. A recuperação será mais rápida e efetiva se você tiver uma rede de pessoas com quem pode contar. Um psicólogo habilitado escutará sem julgamentos o que você tem a dizer e pode fornecer ferramentas úteis para lidar com os efeitos do gaslighting. Mesmo que o relacionamento em questão tenha sido breve, conversar com um profissional o ajudará a descobrir estratégias para se recuperar. Além disso, eles também podem ajudá-lo a lidar com os sintomas de depressão, ansiedade ou outros transtornos.

Falta de empatia começa na infância e tem relação com ausência de limites

Durante o ano de 2020, a produtora de conteúdo Allyne Moreno, 30, presenciou cenas que ela custou acreditar que eram verdade. “Meu vizinho ligou o som em um volume muito alto. Todos do prédio pediram para que diminuísse um pouco, mas ele ignorou. Chamaram a polícia e, em vez de baixar, desceu na portaria e quebrou as câmeras de segurança”. Não foi a única vez que o tal vizinho desrespeitou as pessoas com as quais divide o mesmo ambiente. “Ele foi diagnosticado com covid-19, mas se recusou a ficar no isolamento. Circulava pelo prédio sem máscara. Simplesmente não se importava com nada nem ninguém”.

Especialista em psicologia médica pela UERJ (Universidade do Estado do Rio de Janeiro), a psicanalista Maria Teresa Lopes explica que a empatia é um sentimento que só pode se manifestar quando alguém se coloca no lugar do outro. “Está diretamente ligada à compaixão e ao processo de identificação. Quando ocorre uma falha neste processo, ainda nos primórdios da vida do sujeito, com certeza comprometerá o desenvolvimento emocional e psíquico”.

A psicóloga Alessandra Augusto, que é pós-graduanda em terapia cognitivo-comportamental e em neuropsicopedagogia, alerta que o comportamento de uma pessoa “sem empatia” nenhuma com o próximo pode estar ligado a um transtorno de conduta ainda criança e depois evoluir para um transtorno de personalidade. “Estamos falando de um adulto sem limites, mas precisamos pensar como foi a infância dele. Uma criança que viola os direitos alheios repetidamente deve ser analisada. Ela vai insistir nesse comportamento, chegando a ser agressiva, fazendo até pequenos furtos e sempre terá problemas com os amigos. É comum também apresentar déficit de atenção”, diz.

A especialista acrescenta que esse tipo de transtorno comportamental é apresentado na maior parte em pessoas do sexo masculino, mas as mulheres também podem ter. “A incidência maior é nos meninos e se manifesta de forma mais violenta, sendo comum atos de vandalismo e afronta às autoridades. Eles ficam irritados quando recebem ordens”.

Psicopatia x egoísmo

É comum que essas pessoas sem empatia sejam apontadas como psicopatas, mas as especialistas destacam algumas diferenças. A primeira delas é que a psicopatia se refere a uma desordem de personalidade. “Geralmente os psicopatas se apresentam como pessoas frias, manipuladoras, calculistas. Enquanto a pessoa circunscrita pelas patologias narcísicas é voltada para ela mesma, mas não sem emoção e muito menos calculista. Ela simplesmente ignora o outro. A música do Caetano Veloso descreve bem: Narciso acha feio o que não é espelho”, diz Lopes.

Segundo ela, aqueles que muitas vezes chamamos de egoístas nem sempre são narcisistas. Muitas vezes são pessoas neuróticas que tiveram questões com os limites. “Antes a vida das pessoas era extremamente corrida, sem tempo para nada. E esse ‘sem tempo’ inclui pais que trabalham durante o dia, muitas vezes estendendo esse ‘sem tempo’ para seus filhos, deixando-os serem cuidados e educados por outros. Em função da culpa que isso gera, os adultos acabam não dando limites necessários para que as crianças possam se sentir amadas e cuidadas por eles”, analisa.

Augusto explica que todos já nascem com “temperamentos”, mas a personalidade é uma construção e conta com contribuições hereditárias e em suas experiências sociais. “Se eu tenho alguém que é extremamente favorecido, não tem percepção do mérito, que tem que seguir algumas regras, a personalidade já estará sendo construída de forma diferente de que tem um vigor na sua criação, de quem é levado a seguir horários e a ter empatia com os outros”.

Partindo desse exemplo, Lopes também atribui à educação da família o ponto fundamental para a construção de comportamento. “Podemos ver, algumas vezes, adolescentes, jovens sem nenhum tipo de limite. Tudo posso, basta querer. Os pais, em função de sua culpa, legitimam a monstruosidade que criam e suas ações. Porque não legitimar seria assumir a sua culpa e negligência perante aos filhos. Eu diria que tivemos algumas gerações com esse tipo de criação obscura, na qual os sentimentos não contam, mas sim o dinheiro, a posse. Não dou afeto, mas dou objetos, como se um pudesse substituir o outro”.

Ela destaca que quem não tem empatia faz parte de um grupo que tem bastante dificuldade de aceitar regras e se martiriza quando precisa se ajustar a elas. “Estão sempre na defensiva. São pessoas que sofrem, mas que dificilmente assumem este sofrimento. Entendem sofrimento como fracasso, e não como algo que faz parte da vida”, diz.

Augusto ainda diz que essas pessoas agem impulsivamente, como sair do emprego sem planejar, trocar de relacionamentos compulsivamente e projetar a culpa em terceiros. “Eles também acham que quem está sofrendo é merecedor daquela situação. Facilmente se envolvem em brigas, porque não têm paciência”, informa.

Como melhorar a empatia?

A empatia é uma competência que só se desenvolve na prática. Saiba como começar:

  • Não julgue: esse talvez seja o primeiro mandamento para ter empatia. Quando escolhe não fazer julgamentos, é capaz de ouvir, acreditar e se aprofundar sem procurar pelas falhas. Em vez de julgar, indique caminhos possíveis para dias melhores.
  • Abra-se para as histórias: prestar atenção nos detalhes, questionar menos, superar os próprios preconceitos, tudo isso envolve compreensão e aceitação. Ser empático não é concordar com tudo, mas compreender do seu ponto de vista.
  • Pratique a escuta atenta: caso não possa ouvir a pessoa naquele momento, seja gentil em dizer que não pode e o procure assim que possível. Essa é uma decisão inteligente, pois ter empatia significa se envolver com o que se está escutando. Preste atenção no tom de voz e à linguagem corporal.
  • Esteja disposto: não só a ouvir, mas a ajudar, colocar a mão na massa. Procurar viver situações desconhecidas para entender o que as pessoas que estão inseridas naquele contexto enfrentam faz parte dessa disposição.
  • Reconheça as diferenças: somos iguais em nossa humanidade, mas, ao mesmo tempo, completamente diferentes uns dos outros. Esse reconhecimento nos coloca no lugar de vulnerabilidade necessário para nos deixar enxergar cada pessoa de uma maneira.
  • Trate bem as pessoas: cuide de sua postura nos momentos de estresse e, durante os conflitos, seja gentil. Lembre-se de que o momento passa, os problemas serão resolvidos e sua postura diante deles, caso seja ruim, nunca será esquecida.
  • Demonstre confiança: fofocas, críticas e exposição desnecessária estão no lado oposto da empatia. Isso afasta as pessoas, provoca insegurança e ansiedade, por isso, mostrar-se alguém sincero e de confiança torna as relações empáticas.