As fases do desenvolvimento intelectual

O aprendizado é um processo rico, fantástico e encantador. Mas, para que ele aconteça de maneira realmente eficaz é preciso entender o que é o desenvolvimento intelectual e suas respectivas fases. Para que você conheça melhor as fases do desenvolvimento, reunimos aqui neste artigo informações sobre este tema. Vamos lá?

O desenvolvimento intelectual e suas fases 

De acordo com o epistemólogo suíço Jean William Fritz Piaget, considerado um dos mais importantes pensadores do século XX, existem quatro períodos de desenvolvimento intelectual, sendo que cada um deles prepara o indivíduo para as fases seguintes de forma que as aquisições de uma fase acabam constituindo uma pré-condição a próxima.

Os estudos de Jean Piaget apontam que o aprendizado é, portanto, um processo gradual. O ponto de partida para o desenvolvido intelectual de uma pessoa é a posição egocêntrica, ou seja: aquela em que a criança ainda não é capaz de distinguir a existência de um mundo externo. A partir daí, Piaget divide o processo de desenvolvimento cognitivo em quatro períodos:

  • 1º período: sensório motor (0 a 2 anos);
  • 2º período: pré-operatório (2 a 7 anos);
  • 3º período: operações concretas (7 a 11 ou 12 anos);
  • 4º período: operações formais (11 ou 12 anos em diante).

Vale destacar que cada um desses períodos se caracteriza por aquilo que o indivíduo consegue fazer e não depende necessariamente da faixa etária da pessoa, mas de suas características biológicas e de fatores educacionais e sociais específicos. A divisão de idade apresentada acima, portanto, é apenas uma referência e não uma norma rígida.

As quatro fases do desenvolvimento intelectual

Agora que você sabe como é o processo de aprendizado e como ele promove o desenvolvimento intelectual dos indivíduos, chegou o momento de entender as suas fases. Importante destacar que estas fases são definidas pelo epistemólogo Jean Piaget. Confira as quatro fases:

1 – Sensório motor

Durante o período sensório motor, a criança baseia-se exclusivamente em percepções sensoriais e em esquemas motores para resolver seus problemas, que são essencialmente práticos. Embora a criança já tenha uma conduta inteligente, considera-se que ela ainda não possui pensamentos, pois nessa idade não dispõe da capacidade de representar eventos, evocar o passado e pensar no futuro.

Os esquemas sensórios motores são construídos a partir de reflexos inatos, usados pelo bebê para lidar com o ambiente. A partir da construção de esquemas pela transformação de sua atividade sobre o meio, a criança vai construindo e organizando noções. Nesse mesmo período, as concepções de espaço, tempo e casualidade são construídas, possibilitando que a criança desenvolva novas formas práticas de lidar com o meio.

2 – Pré-operatório

Este período é marcado pelo aparecimento da linguagem oral, em que a criança começa a construir esquemas de ações interiorizadas, chamados de esquemas representativos ou simbólicos. Nesta fase, a criança pode substituir objetos, ações, situações e pessoas por símbolos, que são as palavras.

Outras características do pensamento da etapa pré-operatória é o animismo, que é a atribuição de sentimentos e intenções às coisas e aos animais.

3 – Operações concretas

Nesta fase, o pensamento lógico e objetivo prevalece. Ao longo do período das operações concretas, as ações interiorizadas vão se tornando cada vez mais reversíveis e, consequentemente, móveis e flexíveis. O pensamento torna-se menos egocêntrico e a criança é capaz de construir um conhecimento mais compatível com o mundo que a rodeia.

4 – Operações formais

A principal característica desta fase é o pensamento livre das limitações da realidade concreta. Nesta etapa a criança se torna capaz de raciocinar logicamente, libertando seus pensamentos e passando a trabalhar com as realidades concretas e possíveis.

Agora, conte pra gente: o que você pensa a respeito deste tema? Conhece o trabalho de Jean Piaget? Utilize o espaço abaixo para compartilhar a sua experiência e também a sua opinião sobre este assunto. Espalhe o conhecimento! Curta e compartilhe em suas redes sociais.

Qual é a vida boa?

Os psicólogos positivos estão interessados na boa vida. O que isso se refere é a busca para entender formas de melhorar a felicidade humana e o que torna a vida digna de ser vivida. Graças à pesquisa, agora sabemos muito mais sobre isso.
Para começar, sabemos que a felicidade não acontece apenas com as pessoas, mas há coisas que podemos fazer activamente, o que aumentará a nossa felicidade, como aprender a ser mais apreciativo.
Mas temos que ser realistas sobre a boa vida. A este respeito, considero úteis as ideias do psicólogo Carl Rogers. Rogers (1961) ao discutir a vida boa escreveu:
“Parece-me que a vida boa não é um estado fixo. Não é, na minha opinião, um estado de virtude, ou contentamento, ou nirvana, ou felicidade. Não é uma condição em que o indivíduo é ajustado, cumprido ou atualizado … A boa vida é um processo, não um estado de ser … É uma direção, não um destino. A direção … é aquela que é selecionada pelo organismo total, quando há liberdade psicológica para se mover em qualquer direção “(Rogers, 1961, pp. 186-187).
A visão de Rogers era que a boa vida não é um resultado a ser alcançado, de uma vez por todas, mas sim é um processo com o qual temos que estar constantemente envolvidos e nos mudar continuamente.
O mais importante é ter a liberdade de se mover em qualquer direção, mas se mover na direção que é mais autêntica para nós.
Rogers, CR (1961). Ao se tornar uma pessoa. Boston, MA: Houghton Mifflin.

História da Psiquiatria Juliano Moreira 1873 – 1933

Segundo Oda e Dalgalarrondo: Juliano Moreira, com seu espírito aberto e inquieto não ignorou a psicanálise; tendo domínio do alemão, conhecia as obras de Freud e tinha uma avaliação crítica delas. Numa resenha em que elogiou o livro de Franco da Rocha, “O pansexualismo na doutrina de Freud” (1920), referiu que a Sociedade Brasileira de Neurologia vinha promovendo palestras de divulgação da psicanálise e comentou, com sua ironia peculiar, que esta era pouco conhecida no país porque:

“No Brasil, em geral os colegas, em obediência à lei do menor esforço, aguardam que as idéias e as doutrinas passem primeiro pelo filtro francês para que nos dignemos a olhá-las contra a luz (…)”.

Juliano Moreira

Um fato histórico pouco divulgado foi à visita de Albert Einstein ao Brasil em 1926. Há controvérsias, pode ter sido em 1925. O fato é que o ilustre cientista esteve hospedado no Hotel Glória do Rio de Janeiro e no dia sete de maio falou para o mundo científico brasileiro na sede da Academia Brasileira de Ciências. Sua conferência foi apresentada em francês e o assunto era extremamente atual na época: Resultados obtidos na Alemanha nos Estudos sobre a Natureza da Luz, comparando a teoria ondulatória e a dos quantas. (Esta conferência foi publicada no Vol.1 número 1 pág.1:3 da Revista da Academia Brasileira de Ciências).

Einstein surpreendeu-se ao encontrar na presidência dos trabalhos um senhor de olhos grandes e penetrantes, pele escura, e franzino. Era Juliano Moreira, presidente da ABC e reconhecido pela inteligência brasileira não só como um grande médico, mas “como um sábio, no mais amplo e rigoroso significado dessa expressão.”

Seu currículo na Academia foi o seguinte:
1917/1920 – Vice-Presidente 1920/1923 – Vice-Presidente 1923/1926 – Vice-Presidente 1926/1929 – Presidente 30/04/1929 – Presidente Honorário

Na Sociedade Brasileira de Neurologia, Psychiatria e Medicina Legal ele recebeu o título de Presidente Perpétuo.

Que estranho fascínio esse homem exercia nos colegas e nas pessoas que o cercavam. Foi admirado e venerado por seus pares e, como veremos, reconhecido mundialmente.

Segundo seu discípulo Afrânio Peixoto, de quem extraímos muitas das informações, Juliano era múltiplo. Foi médico, tropicalista, dermatólogo, sifilógrafo, alienista, psicólogo, naturalista e historiador da Medicina. Sob qualquer ângulo que examinamos a história de Juliano Moreira, ela é extraordinária. Quem poderia imaginar tão brilhante carreira para um menino negro nascido e 6 de janeiro de 1873, na cidade de Salvador, Bahia, no Bairro da Sé. Criado pela mãe, foi reconhecido mais tarde pelo pai. Começou a estudar no Colégio D. Pedro II e depois no Liceu Provincial. Entrou cedo para a Faculdade de Medicina (1886) e formou-se com 18 anos, em vésperas de completar 19, em 1891. Durante o curso e sempre através de concursos, foi interno da Cadeira de Moléstias Cutâneas e Preparador de Anatomia Médico-Cirúrgica. Sua tese de doutoramento foi sobre Etiologia da Sífilis Maligna Precoce. (Segundo Afrânio, essa Tese mereceu honrosas referências do sifilógrafo Buret e do neurólogo Raymond).

Na Bahia de Juliano registramos as seguintes posições:

Hospital de Santa Isabel da Faculdade de Medicina da Bahia:

Interno da Clínica Dermatológica e Sifilográfica (1890).

Assistente da Cadeira de Clínica Psiquiátrica e Doenças Nervosas (1893-?).

Preparador da Cadeira de Anatomia Médico-Cirúrgica (1894-?).

Lente substituto, da 12ª Seção de Clínica Psiquiátrica (1896-?).

Médico Adjunto do Hospital Santa Isabel.
Hospital São João de Deus: Alienista (1893-1903).

Juliano Moreira

Para o concurso de Lente da Faculdade de Medicina (Clínica Psiquiátrica e Doenças Nervosas) apresentou a Tese: Discinesias Arsenicais).

Seu concurso foi uma luta árdua, contra a inveja, o preconceito, as picuinhas acadêmicas que já existiam naquela época. O Prof. Tilemont Fontes não facilitava vida para Juliano. Sobre ele assim se expressou Afrânio Peixoto; “O titular da Cadeira, então, esse, manso, sorria, não dava aula, tinha fama de inteligente, por que não produzia nada, mas alunos virgens e delicados, convinham que lhes resumia suficientemente a especialidade.

De uma reportagem do Correio da Bahia-Repórter, de 30 de julho de 2001, extrai o seguinte trecho: Ainda era cedo, os portões da Faculdade de Medicina da Bahia nem tinham sido abertos, mas já havia um movimento intenso de estudantes no Terreiro de Jesus. É que eles ardiam em curiosidade para conhecer o resultado do concurso para professor que, finalmente, seria divulgado. Os estudantes tinham acompanhado tudo de perto, lotando o salão nobre em cada uma das fases: prova prática, de didática e defesa de tese.

O objetivo era evitar “marmelada”, afinal, eles sabiam que não seria fácil para o jovem médico negro Juliano Moreira vencer um concurso numa instituição com fama de racista, frente a uma banca examinadora majoritariamente escravocrata. A libertação dos escravos, com a assinatura da Lei Áurea,tinha acontecido há apenas oito anos. Foi por isso que, naquela manhã de maio de 1896, quando finalmente entraram no prédio, os futuros médicos mal puderam acreditar no resultado afixado no mural: ao todo, Juliano tinha recebido 15 notas dez.

A vaga era dele.Aquele foi um dia memorável para todos os estudantes, que comemoraram até altas horas a vitória do mérito sobre o preconceito. Juliano era famoso e querido desde os tempos de estudante, por sua modéstia e genialidade: tinha concluído o curso de medicina com apenas 18 anos de idade, com uma tese que tornou-se conhecida internacionalmente. Agora, com apenas 23 anos, tinha conseguido superar concorrentes poderosos e se tornava o mais novo professor da faculdade. Mas, para esse rapaz – filho de uma doméstica e de um funcionário da prefeitura, que só assumiu o filho quando ficou viúvo – a Bahia foi só o começo: não demorou muito para ele ganhar o mundo e tornar-se o mais importante psiquiatra brasileiro.

Ana Maria Oda e Paulo Dalagalarrondo em seu excelente artigo sobre Juliano citam: Em seu discurso de posse, ao ser aprovado no concurso para professor da Faculdade de Medicina da Bahia, em maio de 1896, Moreira descreveu de forma tão elegante quanto contundente o que parece ser sua experiência pessoal com relação ao marcante preconceito de cor na sociedade brasileira de então. Endereçando-se “(…) a quem se arreceie de que a pigmentação seja nuvem capaz de marear o brilho desta faculdade (…)”, disse: “Subir sem outro bordão que não seja a abnegação ao trabalho, eis o que há de mais escabroso. (…) Em dias de mais luz e hombridade o embaçamento externo deixará de vir à linha de conta. Ver-se-á, então que só o vício, a subserviência e a ignorância são que tisnam a pasta humana quando a ela se misturam (…). A incúria e o desmazelo que petrificam (…) dão àquela massa humana aquele outro negror (…)”

Juliano Moreira

Segundo Afrânio Peixoto, ainda na Bahia, Juliano deixou marcas do seu talento e produtividade. Vou apenas transcrever o que Afrânio escreveu em conferência de homenagem a Juliano Moreira: Com Pacheco Mendes, Nina Rodrigues, Alfredo Britto e outros, fundou a Sociedade de Medicina e Cirurgia e a de Medicina Legal da Bahia. Naquela Associação foi que, pela primeira vez no Brasil, em 1895, descreveram a existência, entre nós, do Botão endêmico, afirmativa plenamente confirmada alguns anos depois, com a descoberta do gérmen do mal. Freqüentou na Europa os cursos de doença mentais dos Profs. Jolly, Hitzig, Flechsig, Kraft-Ebing, etc.; os de clínica médica de Leyden e Nothnagel, etc.; os de anatomia patológica de Virchow; fez no Dermatologium, do Prof. Unna, estudos Anatomopatológicos muito completos sobre o Ainhum; ouviu as lições de Raymond, Dejerine, Gille de la Tourette, Brissaud, Garnier, Maurice Fournier, Magnan, etc., na França. Visitou as principais clínicas psiquiátricas e manicômios da Alemanha, Inglaterra, Escócia, Bélgica, Holanda, Itália, França, Áustria, Suíça, etc.. Foi quem primeiro descreveu entre nós a Hydroa vacciniforme (casos publicados em 1895 no British Journal of Dermatology). Dele são os primeiros exames microscópicos feitos entre nós de casos de micetoma, observados na Bahia, na clínica do prof. Pacheco Mendes, assim como do caso de Goundum, descrito por este professor. Por ele foi efetuado, no laboratório do Dermatologium, do grande dermatologista alemão, prof. Unna, o estudo anatomopatológico mais completo, até hoje existente, do Ainhum, sendo sua monografia, publicada em alemão, um dos trabalhos feitos por brasileiro mais citado no estrangeiro (Scheube, Mansor, Mense, Jeanselme, Le Dantec, etc.). Foi o introdutor no Brasil da clinoterapia, como método de tratamento das doenças mentais. Foi quem primeiro efetuou, na clínica neurológica e psiquiátrica da Bahia, de que foi assistente e, depois, professor substituto, a punção lombar com fins de diagnóstico, em casos de tabes dorsalis, demência paralítica, sífilis cerebral e meningites várias. De sua conferência na Sociedade de Medicina e Cirurgia da Bahia, subordinada ao título “A necessidade dos laboratórios nos serviços hospitalares” e depois publicada na “Gazeta Médica” e transcrita em várias outras revistas, resultou a criação de tais serviços em várias clínicas e em vários hospitais. A Faculdade de Medicina da Bahia criou, depois disso, seu excelente Instituto de Clínicas, que é um conjunto de laboratórios propostos a auxiliar os diagnósticos nas diversas clínicas da Faculdade.

Uma das características de Juliano Moreira era a de aglutinador e fundador de Entidades Médicas. Na Bahia foi um dos fundadores da Sociedade de Medicina e Cirurgia e da Sociedade de Medicina Legal da Bahia.

A vida na Bahia não estava fácil para Juliano, se por um lado era querido pelos alunos e admirado pelos colegas, por outro se sentia preso às amarras de um sistema hierárquico discriminador. Foi então que surgiu o convite do Ministro José Seabra para mudar-se para o Rio de Janeiro e assumir o Hospício Nacional de Alienados.

Com o apoio do Presidente Rodrigues Alves obtido através do Ministro Seabra teve condições de apoiar Teixeira Brandão, agora deputado federal, a aprovar a Lei de assistência aos alienados em 1903. Essa lei era baseada na lei francesa de 1838. Entre outras medidas, proibia a colocação dos doentes mentais em prisões e determinava humanização dos tratamentos.

Sua atuação no Hospício Nacional de alienados, além da melhora das condições físicas, retirada de grades, abolição de coletes e camisa de força, novos métodos de tratamento, consistiu em atrair vários jovens profissionais que mais tarde se tornaram figuras marcantes na profissão. Entraram para o corpo clínico Miguel Pereira, Antônio Austregésilo, Álvaro Ramos, Leitão da Cunha, G. Chardinal e Humberto Gotuzzo Como fizera na Bahia, criou um Laboratório e começou a fazer punções lombares diagnósticas. Dali proveio também o maior contingente clínico para a realização dos primeiros estudos feitos entre nós sobre a reação de Wassermann, donde o excelente trabalho do Dr. Arthur Moses, efetuado no Instituto Oswaldo Cruz. Quase ao mesmo tempo, aliás, instalou-se no Hospital Nacional a Seção do Laboratório, propostos às pesquisas da referida reação.

Em 1905 fundou os “Archivos Brasileiros de Psychiatria”, “Neurologia e Medicina Legal”. Juliano já havia sido Diretor dos Anais da Sociedade de Medicina e Cirurgia da Bahia e colaborador na Gazeta Médica da Bahia, do Brazil Médico e na Revista Médico-Cirúrgica do Rio de Janeiro.

Junto com Austregésilo, Ulysses Vianna, Henrique Roxo, Esposel e outros, fundou os “Archivos de Neuriatria”, antes disso já havia fundado os Archivos Brasileiros de Medicina. Ele estava sempre estimulando e participando na difusão de idéias e nas pesquisas brasileiras nessa importante área da Medicina.

É de Juliano a iniciativa de construir no Engenho de Dentro uma colônia para mulheres e foi ele que adquiriu o terreno de Jacarepaguá onde foi construída a Colônia que leva seu nome.

Sua participação em entidades era marcante, foi fundador da Sociedade Brasileira de Neurologia, Psiquiatria e Medicina Legal e em 1917 entrou para a Academia Brasileira de Ciências na vaga de Oswaldo Cruz.

Em 1928, foi convidado pelas Universidades de Tóquio, Kioto, Sendai, Hokaido, Fuknoka, Osaka, etc. no Japão, para fazer conferências sobre assuntos de sua especialidade. Em julho, seguiu ele para aquele país, para dar cumprimento à incumbência. Ali, foi recebido com especial deferência pelos médicos japoneses. As Sociedades Japonesas de Neurologia e Psiquiatria elegeram-no membro Honorário. Antes de partir, fez ainda na Universidade Feminina de Tóquio e no anfiteatro do grande diário “Nishi-Nishi” e na Rádio Sociedade, conferências de despedidas sobre o Brasil e os brasileiros e impressões sobre o Japão. O Imperador conferiu-lhe a Ordem do Tesouro Sagrado. Depois de cerca de quatro meses de permanência naquele país, visitou as cidades de maior importância no extremo oriente, seguindo então para a Europa, a fim de efetuar, em Hamburgo e Berlim conferências para que fora convidado. As Sociedades de Neurologia e Psiquiatria de Berlim, e Hamburgo elegeram-no seu membro Honorário. Assim como a Sociedade Médica de Munique e a Cruz Vermelha Alemã, a Universidade de Hamburgo conferiu-lhe a Medalha de Ouro, que é a maior honra que lhe é dado conferir a um professor estrangeiro.

Juliano Moreira foi o primeiro psiquiatra brasileiro a receber reconhecimento internacional e não é exagero dizer que nenhum outro depois dele conseguiu alcançar sua proeminência e aceitação internacional.

Segundo Oda e Dalgalarrondo: Seu espírito aberto e inquieto não ignorou a psicanálise; tendo domínio do alemão, conhecia as obras de Freud e tinha uma avaliação crítica delas. Numa resenha em que elogiou o livro de Franco da Rocha, “O pansexualismo na doutrina de Freud” (1920), referiu que a Sociedade Brasileira de Neurologia vinha promovendo palestras de divulgação da psicanálise e comentou, com sua ironia peculiar, que esta era pouco conhecida no país porque “No Brasil, em geral os colegas, em obediência à lei do menor esforço, aguardam que as idéias e as doutrinas passem primeiro pelo filtro francês para que nos dignemos a olhá-las contra a luz (…)”.

Seu trabalho clínico e de administrador foi digno, construtivo e inovador. Sua capacidade de despertar interesse, aglutinar novos talentos ao seu redor foi excepcional. Sua preocupação em divulgar novos conhecimentos, fundar revistas, estimular as já existentes, sua participação em entidades de classe e na Academia Brasileira de Ciências foi inigualável. Sua participação em congressos Internacionais mostrava seu interesse em aprender e difundir, participar e divulgar.

Sua casa era um centro de atividades e de reuniões de alunos e colegas. Sua esposa Augusta ajudava a receber em longos saraus científicos. Numa sessão da Academia em homenagem a Juliano Moreira assim falou o Sr. Miguel Osório. “Todas as vezes que no Brasil um grupo de homens de ciência se formava para criar uma associação… o nome de Juliano Moreira era imediatamente lembrado como um elemento indispensável”. “Ele trazia para o seio das associações esses encantadores predicados de calma e tranqüilidade, de benevolência e tolerância, de modéstia, e de discrição, de amor ao trabalho e moderação, que tornavam inconfundível sua maneira de ser”.

Juliano padeceu de longa enfermidade que foi, aos poucos minando sua resistência e que acabou resultando na sua morte em 1933 na cidade de Correias.

Juliano Moreira tinha os dons naturais da inteligência e bondade, senão que não teve prevenções. Não foi nacionalista, nem teve freguesia intelectual. Ouviu os sons de todos os sinos. Aqui, Silva Lima tropicalista. Ali, Nina Rodrigues, médico legista. Estendeu as mãos a Teixeira Brandão e a Franco da Rocha. Propagou Kraepelin, sem esquecer Pierre Marie, nem Tolouse, Clouston e Morselli. Leu a todos, aprendeu de todos, a todos no seu tanto consagrou, com a citação, a aplicação, a correção. Freud, novidade de hoje, há trinta anos era estudado por ele na Bahia. Essa universalidade de espírito dispôs à razão para a tolerância do conhecimento, como a benignidade do coração para a tolerância das relações sociais. “Sage et savant”. Sábio. Juliano Moreira, grande homem de ação e de Ciência, dispensa louvor dos adjetivos. Basta-lhe a fé de ofício de sua vida, nobremente preenchida. Basta-lhe a escola que criou e manteve, os discípulos que suscitou e promoveu. Basta o bem que fez. Estamos presentes quase todos, e depomos. Segundo a palavra sagrada, será a árvore julgada pelos frutos. Os destas o foram bem, a tolerância, a razão e essa flor sem fruto, mas que embalsama a ironia, que ajuda sorrindo no seu encanto a suportar a vida. Juliano Moreira, médico da razão doente, foi mestre da razão sadia, grande mestre da razão, o grande Juliano Moreira!

Bibliografia de Juliano Moreira registrados no Índice bibliográfico Brasileiro de Psiquiatria de minha autoria:

  1. Moreira, Juliano. As diretrizes da Higiene Mental entre nós. Rev.DeMed.e Higiene Militar,Rio De Janeiro. 1922.
  2. —. Asilo colônia de alienados em Juqueri,São Paulo. Gazeta Médica Da Bahia e Rev.Médica De São Paulo. 1901.
  3. —. L’assistence des alienés au Brésil. Segundo Congresso Internacional De Assistência Aos Alienados,Milão,Itália. 1906.
  4. —. Assistência a alienados no Pará e Rio Grande do Sul. Arq.Bras.DePsiquiatria,Neurologia e Ciências Afins. 1907; 3(4):429-435.
  5. —. Assistência a psicopatas no Rio de Janeiro. Livro De Ouro Oferecido Ao Prof.Cabred,Buenos Aires. 1927.
  6. —. Assistência aos bebedores. Archivos Bras.De Hygiene Mental. 1933; 6(2):123-126.
  7. —. Assistência aos epilépticos, colônias para êles. Arq.Bras.DePsiquiatria,Neurologia e Ciências Afins. 1905; 1(2):167-182.
  8. —. Benemérita campanha contra as intoxicações viciosas. Arq.Bras.DeNeuriatria e Psiquiatria. 1921; 17:243-267.
  9. —. Demência Paralítica. Formulário Do Brasil Médico,Rio De Janeiro. 1915.
  10. —. Esboço de Psiquiatria Forense, pelo Dr. Franco da Rocha. Brasil-Médico. 1905; 19:149.
  11. —. Factores hereditários em Psychiatria. Archivos Bras. De Hygiene Mental. 1919; 2(1):29-34.
  12. —. Falsos testemunhos por desvios mentais. Arq.Bras.DePsiquiatria,Neurologia e Medicina Legal. 1912; 8:315-350.
  13. —. Gesetz uber Irrenfursorge in Brasilien. Psychiatrisch Wochenscrift,Berlim. 1907; 307.
  14. —. A Lei Federal de assistência a alienados e a crítica do Prof.NinaRodrigues. Arq.Bras.De Psiquiatria,Neurologia e Ciências Afins. 1907; 3:77-97.
  15. —. Ligeira vista sôbre a evolução da assistência a alienados na Alemanha. A clínica psiquiátrica de Munique. Arq.Bras.DePsiquiatria,Neurologia e Medicina Legal. 1908; 4(1-2):172-186.
  16. —. Ligeiras notas a propósito da assistência familiar. Arq.Bras.DePsiquiatria,Neurologia e Ciências Afins. 1906; 2(1):25-29.
  17. —. A lues como factor dystrophiante. Archivos Bras. De Hygiene Mental. 1929; 2(1):3-4.
  18. —. Maladies nerveuses et mentales au Brésil. Paris (Conference). 1913.
  19. —. Nota histórica sobre a evolução da Assistência a Alienados no Brasil. Arq. Bras. De Psiquiatria Neurologia e Ciências Afins. 1905; 1(1):65-101.
  20. —. Notícia Sobre a Evolução da Assistência a Alienados no Brasil. Arq. Bras. De Psiquiatria Neurologia e Ciências Afins. 1895; 1:56-105.
  21. —. O aniversário da fundação do Hospital Nacional de Psicopatas.Arq.Bras.De Neuriatria e Psiquiatria. 1927; 23:129-131.
  22. —. O novo agrupamento nosographico das doenças mentaes do Professor Emil Kraepelin. Arq.Bras.De Neuriatria e Psiquiatria. 1921:181-189.
  23. —. A pandemia gripal no Hospital Nacional e sua influência no curso das doenças mentais. Arq.Bras.De Medicina. 1919; 310.
  24. —. Psicoses em leprosos. Arq. Bras. De Psiquiatria,Neurologia e Ciências Afins. 1906; 2(1):41-57.
  25. —. Quais os melhores meios de assistência aos alienados? Arq.Bras.DePsiquiatria,Neurologia e Medicina Legal. 1910; 6(3-4):373-376.
  26. —. Qualidades necessárias a um enfermeiro de psicopatas. ArchivosBras.De Hygiene Mental. 1933; 6(2):81-86.
  27. —. Querelantes e pseudo-querelantes. Arq.Bras.DePsiquiatria,Neurologia e Medicina Legal. 1908; 4:426-434.
  28. —. Reformatório para alcoolistas. Archivos Bras.De Hygiene Mental. 1929; 2(2):61-63.
  29. —. Reformen der Irrenfursorge in Rio de Janeiro. Psychiatrisch Neurologisch Wochenscrift,Berlim. 1905; 33.
  30. —. A seleção individual de imigrantes no programa de higiene mental. Archivos Bras.De Hygiene Mental. 1925; 1(1):109-115.
  31. —. A Sífilis como fator de degeneração. Gazeta Médica Da Bahia. 1899; julho.
  32. —. Trabalhos de antialcoolismo-Assistência aos bebedores. ArchivosBras.De Hygiene Mental. 1933; 6(..):123-126.
  33. —. Um caso de paranoia. Arq.Bras.De Psiquiatria,Neurologia e Ciências Afins. 1907; 3:377-387.
  34. Moreira, Juliano and Peixoto, Afrânio. Classificação das molestias mentaes do professor Emil Kraepelin. Arq.Bras.De Psiquiatria Neurologia e Ciências Afins. 1905; 1(2):214-214.
  35. —. Les Maladie Mentales au Brésil. Comunicação Ao Congresso Int.DePsiquiatria De Amsterdam. 1907.
  36. —. Les Maladies Mentales dans les Climats Tropicaux(Relatório ao XV Congrès Int. de Médecine). Arq.Bras.De Psiquiatria Neurologia e Ciências Afins. 1927; 2:222-241.
  37. —. A paranoia e os síndromes paranoides. Arq.Bras.DePsiquiatria,Neurologia e Ciências Afins. 1905; 1(1):5-33.
  38. Moreira, Juliano and Pennafiel, Carlos. A contribution to the study of dementia paralytica in Brazil. Journal of Mental Science,London. 1907.
  39. Moreira, Juliano and Vianna, Ulisses. Contribuição ao estudo da demência paralítica no Rio de Janeiro especialmente no Hospital Nacional de Alienados. Arq.Bras.De Neurologia e Medicina Legal. 1916.
  40. Peixoto, Afrânio and Moreira, Juliano. A paranoia e os sintomas paranóides. Brasil Médico. 1904.
  41. —. La Paranoia légitime, son origene et nature. Relatório Ao 15o Congresso Internacional De Medicina,Lisboa. 1906.

Bibliografia consultada:

  1. Afrânio Peixoto. À memória de Juliano Moreira. Fundador e Presidente da Academia. Ata da sessão Ordinária de 23 de maio de 1933 (p18-36). Anais da Academia Brasileira de Ciências. Tomo V. n 2. junho 1933. p. 81-97.
  2. Miguel Osório. À memória .. p 81-97.
  3. Roquete Pinto. À memória… p. 81-97
  4. Oda, Ana Maria Galdini Raimundo // Dalgalarrondo, Paulo: Juliano Moreira: um psiquiatra negro frente ao racismo científico. Rev. Brás. Psiquiatr. 2000(4); 178-179
  5. Paim, Isaias. Tratado de Clínica Psiquiátrica. São Paulo. Ed. Grijalbo, 1976.

 

Gamofobia – O Que É, Causas, Sintomas e Tratamento

A gamofobia é um problema sério que afeta milhares de homens e mulheres

É normal ter medo de casar, principalmente, nos dias mais próximos da cerimônia. Trata-se de um passo muito grande na vida das pessoas e é comum ter um “frio na barriga” quanto a essa escolha.

Entretanto, essa sensação é muito diferente da fobia de casamento, ou seja, um medo de se relacionar tão intrínseco que impede e paralisa a pessoa de prosseguir com aquilo. Sendo assim, é importante reconhecer quando existe o medo de compromisso e a fobia de relacionamento.

“Estou com medo de casar e agora?”. Bem, acompanhe o artigo e descubra se você pode se encaixar no quadro da gamofobia. De qualquer forma, vale ressaltar que é possível resolver essa questão com ajuda de um profissional capacitado, mas iremos tratar sobre isso no momento certo.

O que é gamofobia?

Para compreender o significado do termo, precisamos identificar sua origem. A palavra “gamofobia” vem do grego “phobos” (medo) e “gamos” (casamento). Portanto, ela pode ser compreendida como o medo de casar.

Dessa forma, esse problema se expressa em um sentimento descontrolado e irracional de que as relações se tornem futuramente um casamento. Devemos ter em mente que esse é um medo tão grande e intenso que impossibilita um relacionamento saudável.

Essa doença afeta tanto homens como mulheres. Sendo assim, os indivíduos sofrem por diversos motivos e preferem passar a vida longe de situações que os levem para algum tipo de compromisso mais sério com outra pessoa.

Nesse sentido, as pessoas que tem medo de relacionamento se isolam, se escodem e cortam qualquer tipo de contato com aqueles que falam sobre a vida amorosa. Os temas sobre família e responsabilidade são evitados a qualquer custo também.

Além disso, não é somente o medo do compromisso na própria vida que os assombram. Outras situações, como fotos, mensagens, conversas e convites de casamentos também trazem aflição para essas pessoas.

Causas do medo de relacionamento             

Então, o que causa esse medo de se envolver? Bem, não é possível delimitar com exatidão o que leva alguém a não querer permanecer em um relacionamento, entretanto, a ciência já demonstrou algumas possibilidades conjunturais da gamofobia.

Num primeiro momento, é possível relacionar esse tipo de medo com algum evento traumático no passado. Sendo assim, um relacionamento romântico infrutífero, traições e até perdas podem ser causas do medo de namorar e casar.

Além disso, experiências próximas também podem ter uma influência sobre essa questão. Nesse sentido, vivenciar uma separação dos pais ou mesmo conviver com casais de amigos com relacionamento problemático podem atrapalhar a visão do indivíduo sobre um futuro em conjunto com alguém.

Inclusive, questões psicológicas são capazes de influenciar o indivíduo a desenvolver a gamofobia. Então, questões de ansiedade e depressão avançadas e não tratadas são condicionantes fortes. Ainda, ter que lidar com o estresse e tensões do dia a dia podem piorar a situação das pessoas que tem medo de se relacionar.

Vale ressaltar também a possibilidade da genética ser um aspecto importante dessa equação. Então, a problemática pode ser um resultado de combinações amplificadas com o fator da própria condição da pessoa.

Características do medo de se apaixonar

Identificar a gamofobia pode não ser a tarefa mais fácil. Nesse sentido, o reconhecimento é um passo importante para conseguir ajuda profissional e tratar a questão. Dessa forma, torna-se fundamental prestar atenção aos sinais que esse medo incontrolável apresenta.

Sintomas psicológicos da gamofobia:

O medo de um relacionamento sério deixa diversas marcas no psicológico da pessoa. Então, é necessário compreender quais são esses sintomas que apresentamos. Confira abaixo:

  • Medo;
  • Terror ou desespero ao pensar em viver situações de compromisso;
  • Sensações de tristeza e desgosto frequentes.
  • Afastar-se de pessoas que são casadas;
  • Afastar-se de indivíduos que falam sobre casamento;
  • Incapacidade de afastar o medo;
  • Sensação de morte em pensar em um relacionamento sério.

Sintomas físicos do medo de se apaixonar

Pode não parecer, mas o nosso corpo dá diversas demonstrações do que está acontecendo conosco. Sendo assim, é fundamental prestar atenção nos sintomas físicos da gamofobia. Confira abaixo:

  • Palpitação;
  • Falta de ar;
  • Náusea;
  • Dor no peito;
  • Tonturas;
  • Desmaios;
  • Choro,
  • Tremor;
  • Sensações que os fazem perder o controle.

Tratamento da gamofobia

Quando o medo do casamento ou qualquer tipo de compromisso passa a ser excessivo e se torna um desafio, é preciso que a ajuda psicológica seja levada em consideração. Nesse sentido, um profissional qualificado deverá identificar os motivos que desencadearam o problema e, consequentemente, tratá-los da melhor forma.

Pode parecer brincadeira, mas acredite: não é. Há pessoas que não assumem suas perturbações em relação ao assunto, e, por isso, se isolam e não criam vínculos de compromissos mais sérios por causa de fatores psicológicos difíceis de serem superados.

Dessa forma, a consulta psicológica é a melhor alternativa, porque assim o indivíduo terá a oportunidade de confiar seus medos e receios para alguém. Tal metodologia permite o indivíduo a tratar todos os traumas que estão em questão.

O início do tratamento é a parte mais importante de todo o processo. Afinal, para ele acontecer, o indivíduo deve assumir a doença e aceitar ajuda. Sendo assim, a pessoa precisa admitir que esta reação não é comum e nem benéfica para a sua vida. O tratamento é um passo à um caminho correto.

Além disso, é válido frisar a importância das pessoas mais próximas, sejam elas familiares ou amigos. Durante esse processo, eles ajudarão a construir uma base emocional capaz de ultrapassar a barreira do medo.

Entretanto, quando o caso é mais grave e o paciente apresenta sinais de ansiedade extrema, geralmente, é aconselhado a utilização de medicamentos. Nesse cenário, é fundamental a presença de um psiquiatra para avaliar a melhor forma de combater esse problema.

Para aqueles que estão em um relacionamento com alguém que possui gamofobia, é ideal que o parceiro(a) tenha ciência que precisará ser muito ativo em diálogos e incentivos para avançar no tratamento do companheiro(a).

É importante frisar: este é um problema que possui tratamento. Basta haver a aceitação do paciente e a procura por um profissional, pois ele pode adquirir maior qualidade de vida e desfrutar tranquilamente de um relacionamento amoroso.

Qual a importância da Psicologia do Desenvolvimento?

Ao estudar e identificar diferentes aspectos das fases da vida, a Psicologia do Desenvolvimento apoia a construção e aperfeiçoamento do indivíduo em cada uma delas.

Em outras palavras, esse campo do conhecimento serve para evidenciar comportamentos normais e prejudiciais, incentivando melhorias e corrigindo falhas.

Parece um pouco complexo? Então, vamos a um exemplo bastante comum.

Imagine que uma criança tenha aprendido a ler recentemente, e vem tomando gosto pela leitura.

Ela lê placas pelas ruas, comunicados, mensagens em jogos online, gibis e pequenos livros.

Mas, depois de alguns meses, começa a mostrar desinteresse pelas letras e palavras, deixando seus livros de lado, apresenta queda no rendimento escolar e agressividade junto aos colegas.

Preocupados, os professores conversam com os pais da criança, que pedem para que ela leia em voz alta em casa, reparando uma confusão entre as letras.

Esse incidente motiva uma consulta com um médico especialista em oftalmologia, que descobre um problema na visão.

Nesse exemplo, a Psicologia do Desenvolvimento colabora sinalizando que existem causas por trás de comportamentos prejudiciais ou incomuns, como a agressividade da criança.

Isso porque o desenvolvimento humano é formado por quatro pilares que estão, sempre, interligados:

  • Aspecto físico-motor: descreve a maturação do corpo e da mente
  • Aspecto intelectual: se refere à capacidade cognitiva do ser humano
  • Aspecto afetivo-emocional: mostra a capacidade de integrar experiências e emoções, construindo seus sentimentos
  • Aspecto social: reações e posturas relacionadas às vivências em sociedade.

Qual a importância da Psicologia do Desenvolvimento para o professor?

Qual a importância da Psicologia do Desenvolvimento para o professor?

Compreender cada um dos aspectos que citamos acima é essencial para o sucesso no processo de ensino-aprendizagem.

Afinal, a formação dos conhecimentos acompanha o desenvolvimento em cada fase da vida, determinando as melhores técnicas pedagógicas, conteúdos e linguagens que favorecem o aprendizado.

Crianças tendem a compreender melhor mensagens transmitidas a partir de ferramentas lúdicas, de modo mais superficial, enquanto adultos precisam de aprofundamento e conteúdos mais robustos.

Ou, nas palavras das educadoras Telma Sara Matos, Fernanda Nasciutti e Vilma Leni Nista-Piccolo:

“A partir da compreensão de que o ser humano está em constante evolução, e que passa por fases de desenvolvimento com características individuais relacionadas ao seu processo de aprendizagem, torna-se necessário que o professor tenha um conhecimento em torno das teorias do desenvolvimento, com informações sobre as diferentes fases evolutivas de seus alunos. O desenvolvimento humano se processa em conjunto com o conhecimento, sendo primordial o entendimento do ser em todos os seus estágios desenvolvimentais.”

Além de contribuir para a estrutura e técnicas de ensino-aprendizagem, conhecer os aspectos do desenvolvimento humano ajuda a construir vínculos entre educadores e alunos, fortalecendo a confiança e facilitando a prática pedagógica.

Quando surgiu a Psicologia do Desenvolvimento?

A data exata do surgimento dessa disciplina é controversa, mas acredita-se que tenha nascido no final do século 19, época em que foram registrados alguns marcos na área.

Um deles foi a fundação das primeiras sociedades para o estudo do desenvolvimento humano, como o Child Research Institute at Clark, nos Estados Unidos, e a Société Libre pour l’Étude de l’Enfant, na França.

Na ocasião, ambas as nações ganharam periódicos abordando o tema, a exemplo do Pedagogical Seminars e do L’Année Psychologique.

O ano de 1882 também se destaca, devido à publicação do livro “The mind of the child”, no qual William Preyer já chamava a atenção para as particularidades da mente infantil, despertando o interesse de pesquisadores pelo assunto.

Quais os campos de discussões na Psicologia do Desenvolvimento?

O tema afeta diferentes segmentos e campos de discussão, pois envolve variáveis afetivas, cognitivas, sociais e biológicas das pessoas, ao longo de toda a sua vida.

Nesse sentido, antigas teorias relacionavam o desenvolvimento humano apenas a variáveis externas, ou somente às internas.

Atualmente, existe um consenso de que ambos os tipos afetam a forma como o indivíduo cresce e se transforma.

As variáveis internas consistem em processos presentes desde o nascimento, e bases genéticas que predispõem à formação de determinados comportamentos e características.

Variáveis externas, por outro lado, descrevem a influência que o ambiente exerce sobre a maturação do ser humano, que se desenvolve de maneira distinta em diferentes sociedades e momentos históricos.

Uma pessoa criada em uma comunidade com forte apelo religioso, por exemplo, provavelmente terá interesses diferentes daqueles que teria caso nascesse em um local onde a religião é pouco valorizada.

Quanto ao momento histórico, podemos observar, por exemplo, a redução na quantidade de filhos à medida em que as mulheres ganharam melhores perspectivas nos estudos e na carreira.

Variáveis externas impactam, inclusive, no processo de aprendizagem, já que é necessária uma exposição a algo novo para aprender.

Principais teorias e teóricos da Psicologia do Desenvolvimento

Desde os primórdios das civilizações, o ser humano manifestou curiosidade sobre seu processo de desenvolvimento, comparando sua visão a respeito de um assunto em diferentes etapas da vida.

Por isso, a abordagem contemporânea da Psicologia do Desenvolvimento combina informações de diferentes escolas de pensamento, partindo de estudos sobre a construção do conhecimento e a aprendizagem.

A seguir, trazemos as principais teorias que influenciaram esse campo.

Gestalt

Conhecida como Psicologia da Forma, a Gestalt prega que o todo (por exemplo, uma figura completa) não corresponde somente à soma de suas partes, tendo significados que vão além delas.

A Gestalt acredita que pequenos gestos ou respostas superficiais dão pistas sobre sentimentos latentes, o que a torna um instrumento terapêutico que contribui para a saúde mental.

Segundo essa teoria, as pessoas se desenvolvem conforme aprendem a usar estruturas biológicas que já nascem com elas, ou seja, apenas descobrem sua capacidade cerebral, aos poucos.

Apesar de colaborar para o estudo do comportamento humano, essa ideia foi superada mais tarde, quando cientistas descobriram que é possível ampliar a capacidade de aprendizado.

Teoria psicanalítica de Freud

Famosas, as ideias de Sigmund Freud evidenciam os aspectos emocionais do desenvolvimento, destacando sua influência no comportamento natural a cada fase da vida.

O neurologista e pesquisador rompeu a concepção racionalista ao afirmar que a maior parte das atividades da mente humana é de ordem inconsciente, profundamente impactada por fatores afetivos.

Em 1923, a obra “O ego e o id” formalizou sua teoria de divisão para a mente, composta por id, ego e superego.

O id ou inconsciente é definido como uma força propulsora, não socializada e que busca pelo prazer incondicional da pessoa, sendo movido pela libido ou energia da pulsão sexual.

O ego seria a parte mais superficial, responsável pelas interações entre indivíduo e meio, enquanto o superego atua como controlador dos impulsos do id e intenções do ego.

Segundo a psicanálise, o desenvolvimento ocorre em resposta à procura por satisfação, direcionada pela libido desde que o ser humano nasce.

Assim, a cada etapa do desenvolvimento, o indivíduo se concentra em uma parte do corpo e em ações que lhe dão mais prazer.

Um exemplo é a fase oral, na qual os bebês concentram a libido na região da boca, já que a alimentação e o contato com chupetas, mordedores, etc., os deixa satisfeitos.

Behaviorismo

Procurando no dicionário, esse campo de estudo é descrito como:

“Teoria e método de investigação psicológica que procura examinar de modo mais objetivo o comportamento humano e dos animais, com ênfase nos fatos objetivos (estímulos e reações), sem fazer recurso à introspecção.”

O behaviorismo acredita, então, que os comportamentos mudam a partir de alterações ambientais, sendo o estímulo uma mudança no ambiente, e a reação, uma mudança realizada pelo indivíduo.

Sua contribuição para a Psicologia do Desenvolvimento se encontra na descoberta de que é possível alterar padrões de comportamento.

Lev Vygotsky

Um dos principais representantes da teoria cognitiva, Vygotsky tem uma visão diferenciada do desenvolvimento humano, considerando as pessoas como construtoras de sua realidade ou representação interna do mundo em que vivem.

Um dos destaques de seus estudos é a perspectiva de que, para construir seus conhecimentos, o indivíduo interage com o meio e o momento histórico em que se insere.

Jean Piaget e a Psicologia do Desenvolvimento Infantil

Como mencionamos nos tópicos anteriores, um dos teóricos mais lembrados quando se fala em Psicologia do Desenvolvimento é Jean Piaget.

Seu trabalho se concentrou em como se dá a construção do conhecimento, ou seja, quais processos estão por trás da evolução na estrutura do pensamento do ser humano.

Para responder a essa questão, o autor estudou a fundo o comportamento durante as primeiras fases da vida humana, chegando a quatro estágios de desenvolvimento cognitivo, desde o nascimento até a adolescência.

De acordo com sua tese, o conhecimento é construído a partir de um sistema que busca se equilibrar, assimilando e acomodando novidades de maneira cíclica.

Na assimilação, a pessoa entra em contato com o mundo exterior e aprende informações novas, que serão agregadas ao seu repertório.

Em seguida, ocorre a acomodação, na qual essas informações são confrontadas com o que a pessoa já sabia e, a partir desse confronto, ocorre uma mudança na estrutura de seu pensamento – a construção de um novo conhecimento e consequente avanço cognitivo.

Abaixo, saiba mais sobre os quatro estágios formulados por Piaget.

Período sensório-motor

Começa com o nascimento e se estende até cerca de dois anos de idade.

No início da vida, os bebês se restringem a desempenhar movimentos reflexos, como a sucção, para que consigam se alimentar.

Mas, com o tempo, aprimoram seus movimentos e incorporam outros objetos, além do seio materno, à sua rotina de sucção, indicando diferenciação entre seu corpo e o mundo exterior.

Período pré-operatório

É compreendido entre 2 e 7 anos, começando quando a criança aprende a falar.

Esse é um marco muito importante, pois permite que meninos e meninas expressem seus pensamentos e emoções, embora ainda vejam o mundo de modo egocêntrico.

Seu aprendizado é fundamentado por vivências e objetos que conhecem.

Período operatório concreto

Definido entre 7 e 11 a 12 anos, é caracterizado pela construção de estruturas lógicas e redução do egocentrismo, possibilitando o trabalho em grupo e colaboração.

Período operatório formal

Época em que se inicia a adolescência, é nesse período que o indivíduo se torna capaz de exercitar a reflexão, criar hipóteses e deduções.

Também amplia sua capacidade de raciocínio, solucionando equações com muitas variáveis ou analisando temas complexos com sucesso.

Quais são os principais fatores que influenciam o desenvolvimento humano?

Quais são os principais fatores que influenciam o desenvolvimento humano?

As teorias e estudiosos que comentamos acima permitiram a descoberta de quatro fatores principais que influenciam a maturação do indivíduo

São eles:

  • Hereditariedade: consiste em genes repassados pelos pais, que determinam o desenvolvimento de cada um. Dependendo das experiências e do ambiente, eles podem, ou não, se manifestar
  • Crescimento orgânico: a maturidade física dá ao adolescente/adulto possibilidades que ele não tinha quando criança
  • Maturação neurofisiológica: corresponde às habilidades necessárias para dominar novos conhecimentos, como a capacidade de falar ou andar
  • Ambiente: reúne todos os estímulos externos, tanto do local onde o indivíduo vive quanto das pessoas de sua convivência.

Conclusão

Ao longo deste texto, comentamos as possíveis origens e contribuições da Psicologia do Desenvolvimento, disciplina importante para compreender as fases da vida humana.

 

O sentido da vida em tempos difíceis

Tempos extremos, como este que vivemos na atualidade, colocam nossa liberdade em questão. Quando a sobrevivência se torna um imperativo, há uma série de imposições externas e internas que impactam nosso modo de operar e de nos relacionar. A pandemia da COVID-19 nos fez instaurar novas medidas no dia a dia: preventivas, como o isolamento físico e procedimentos de higiene para evitar contágio e transmissão; de manutenção, como dos serviços básicos e de abastecimento; e também medidas emergenciais, como a atuação de profissionais de saúde, da área social e de pesquisa, na linha de frente de combate ao vírus. Somando a esse contexto complexo, enfrentamos uma grave crise econômica, que tem gerado desemprego e reduções orçamentárias drásticas. Tudo isso e ainda lidando com a preocupação, o sofrimento e o medo de um inimigo invisível aos nossos olhos.

Imersos neste cenário, podemos nos questionar: “é possível ser livre em tempos de isolamento?”, “como posso ser livre se estou enfrentando diariamente um vírus que pode ser muito grave e letal?” e “será que vou sobreviver à pandemia?” – questões que colocam, em seu centro, não a nossa, mas liberdade do vírus. No fundo, queremos nos ver livres logo desse inimigo externo que nos privou do mundo como o conhecíamos, que trouxe perdas e nos fez encarar nossa própria finitude. Então, a pergunta que é pano de fundo para as anteriores é: “qual o sentido desse sofrimento todo?”.

É essa falta de sentido no sofrimento que nos frustra, vulnerabiliza e fragiliza, a ponto de gerar ansiedade, estresse crônico, melancolia, irritabilidade, neuroses, fadiga mental e emocional e até vazio existencial. E sem dúvida isso afeta toda a nossa forma de ser e de nos relacionar: há pessoas sofrendo extrema pressão do trabalho (seja home office ou in loco, seja pelo excesso ou pela impossibilidade de trabalhar), há pessoas enfrentando solidão, outras cansaço, dificuldades e estresse na convivência privada (com familiares, parceiros e até problemas de violência doméstica). Não é à toa que, assim como hospitais, centros de atendimento psicológico e psicoterapêutico também estão lidando com o aumento exponencial de pessoas que precisam de apoio para lidar com questões psicoemocionais em meio à pandemia. A Federação Internacional da Cruz Vermelha, inclusive, publicou orientação provisória para profissionais e voluntários de primeiros cuidados psicológicos remotos durante o surto de COVID-19.

Mas o que sentido de vida tem a ver com liberdade? Buscar sentido na vida, mesmo em situação de sofrimento, é um caminho para a liberdade, segundo a cosmovisão de Viktor Frankl, médico vienense, sobrevivente de campo de concentração, que criou (e vivenciou) a Logoterapia. O exemplo do que ele enfrentou e, sobretudo, de como experienciou essa situação extrema pode nos trazer pistas de como lidar com o momento atual.

Em seu livro Em Busca de Sentido, onde narra o que viveu no campo de concentração, Frankl aborda o conceito de liberdade interior, trazendo como pergunta orientadora algo semelhante ao que levantamos acima: “Onde fica a liberdade humana?” (Frankl, 2008, p. 88); e discorre sobre a possibilidade de agir “fora do esquema” (no caso, o dos campos de extermínio), de pessoas que foram capazes, apesar das circunstâncias e condições degradantes, de não sucumbir à apatia, irritação, à sujeição do dominador ou perda de vitalidade:

no campo de concentração se pode privar a pessoa de tudo, menos da liberdade última de assumir uma atitude alternativa frente às condições dadas. E havia uma alternativa! (Frankl, 2008, p. 89)

Ressalvadas as devidas diferenças, essa liberdade como atitude também é hoje uma chave para lidar com a pandemia, inclusive como um fator de preservação de saúde e manutenção da vitalidade humana. Não se trata de se livrar do que faz sofrer, mas de agir nessa situação, lidar com o sofrimento, compreendendo que também nele há possibilidades de sentido. Na experiência de vida dele nos campos de concentração, enquanto alguns se perguntavam se sobreviveriam àquela realidade, Frankl se questionava sobre o sentido do sofrimento e da morte, como parte da vida e da existência humana, afinal:

Uma vida cujo sentido depende exclusivamente de se escapar com ela ou não e, portanto, das boas graças de semelhante acaso – uma vida dessas nem valeria a pena ser vivida. (Frankl, 2008, p. 91)

Uma vida com sentido é esta em que se tem liberdade de escolha de atitude diante do que ela espera de nós, enfrentando com responsabilidade as decisões tomadas. Para Frankl, a liberdade só é possível com responsabilidade. Para ele, “ser pessoa é ser livre e ser responsável”, e a liberdade está em realizar essa busca de sentido na vida, encontrar o “para que viver” de cada ser único e irrepetível que somos. Tempos difíceis, de sofrimento, nos colocam no enfrentamento direto com questões sobre o sentido de vida. Por isso, é fundamental compreender que sempre há uma decisão interior possível diante de uma situação extrema – e que é essa decisão (que pode ir da vitimização à manutenção da dignidade e humanidade) que vai conduzir ao tipo de transformação que podemos vivenciar nessa situação.

É adotando uma atitude humanizadora, de manutenção de sua dignidade, inclusive em situação de sofrimento, que o ser humano se põe em busca do seu sentido na vida. O sentido, para a Logoterapia, está na possibilidade de o ser humano encarar os sentidos que está para realizar, valores a realizar. Posto isso, é viver num campo polar de tensão estabelecida entre a realidade e os ideais por materializar. O sentido deve ser descoberto, ele não pode ser dado.

Então, que caminhos existem para encontrar esse sentido? Frankl aponta a vivência de valores de criação, a liberdade espiritual (sem atribuição dogmática ou religiosa) e a experiência com o que é belo, da natureza e da arte. Bebendo da mesma fonte, o escritor búlgaro Todorov reforça esses elementos, em seu livro Diante do Extremo, nomeando-os como exercício da vontade, cuidado de si (cuidar-se, nutrir-se, respeitar-se em primeiro lugar) e atividades do espírito (busca da beleza e da verdade).

Através desse exercício da liberdade com responsabilidade, é possível identificar o sentido daquilo que a vida apresenta no momento (especialmente em tempos em que nossos prazeres são reduzidos), mobilizar recursos internos, despertar nossa consciência e encontrar o sentido e o significado de nossa existência, para transcender o sofrimento e seguir em frente.

Referências bibliográficas

FRANKL, V. Em busca de sentido: um psicólogo no campo de concentração. Trad. Walter O. Schlupp e Carlos C. Aveline. 25 ed. Petrópolis: Vozes, 2008

INTERNATIONAL FEDERATION OF RED CROSS AND RED CRESCENT SOCIETIES. Primeiros cuidados psicológicos, remotos, durante o surto de COVID-19. Mar. 20. 13p

TODOROV, T. Diante do extremo. Trad. Nícia Adan Bonatti. São Paulo: Ed. Unesp, 2017

Perfil da mãe narcisista

Distanciamento emocional: o(a) narcisista só reconhece a validade de seus próprios sentimentos. Por acreditar ser merecedora de tratamento e atenção especiais, a mãe narcisista se recusa a se envolver com as emoções dos outros. Devido a sua atitude egoísta e egocêntrica, é incapaz de estabelecer uma conexão afetiva genuína com quem quer que seja, incluindo sua própria filha, pois age de maneira fria, seca e distante quando o assunto não orbite ao redor de seu próprio estado ou necessidades emocionais.

É perfeccionista: tudo o que o(a) narcisista faz é a reprodução mais acurada dos parâmetros mais altos de excelência. Com problemas de identidade e de autoestima frágil, o(a) narcisista precisa ser bajulado constantemente. Ao contrário do que acredita, sua atitude perfeccionista não comunica um talento nato, mas uma insegurança profunda. Quando não consegue corresponder as suas regras e expectativas, ou quando não é reconhecido através de elogios, sofre com a autocrítica desabonadora. O perfeccionismo da mãe narcisista é desgastante, fazendo todos ao seu redor se sentirem pequenos e desvalorizados.

Famílias disfuncionais: narcisistas comumente provêm de famílias disfuncionais. A família criada pelo narcisista, invariavelmente, acaba se tornando uma. É praticamente impossível manter uma vida harmoniosa em família sob a influência direta de uma matriarca narcisista. Visto que manipula todos a sua volta para servir aos seus próprios interesses, a união entre os membros da família acaba ficando comprometida. A mãe narcisista usa de leilão emocional para favorecer o(a) filho(a) “do momento”, ou seja, aquele(a) que está mais disposto a corresponder as suas vontades e exigências descabidas sem grande protesto, estimulando o desentendimento entre irmãos(ãs) de forma sutil, insincera e amoral.

Trata os outros de forma superior: o narcisista é naturalmente arrogante, pois acredita ter sido colocado ao mundo para ser servido e admirado. Por ter uma autoestima frágil e que requer constante afirmação externa, usa das interações com as outras pessoas para se autovangloriar, é presunçoso(a) e está sempre subestimando a inteligência e a experiência alheia. Como resultado, a filha de mãe narcisista nunca tem nada de bom para oferecer ou contribuir em seu relacionamento com a mãe. Independente de sua idade, estágio de desenvolvimento, experiência ou know-how, seu intelecto é sistematicamente menosprezado, suas habilidades e talentos ignorados ou descartados e seus argumentos rejeitados sem ao menos serem devidamente considerados.

Relacionamentos disfuncionais: manter um relacionamento com um(a) narcisista significa se submeter à tirania de seu ego gigantesco, faminto e incansável. Seja com mãe, pai, “amigo”, colega de trabalho ou parceiro amoroso, insistir em um relacionamento com um(a) narcisista significa dizer sim a uma vida marcada pela autoanulação, segredos, chantagens emocionais, codependência (Para aprender como superar esta tendência, recomendo o meu curso online, “A codependência”), mentiras e abuso psicológico, entre outros. Como se recusa a aceitar e respeitar a individualidade e a autonomia alheias, assim como as preferências e necessidades dos outros, o relacionamento com a mãe narcisista só “funciona” quando a filha se submete de corpo e alma a seu controle e manipulação psicológica.

Vive de aparências: para indivíduos com transtorno de personalidade narcisista, what you see is not what you get. Para compensar a autoestima frágil, o desconforto emocional, a falta de identidade, autenticidade, naturalidade, autoconfiança e amor-próprio, o(a) narcisista tende a exibir um esmero e uma preocupação exagerados com a aparência física. A mãe narcisista capricha no visual a fim de distrair a atenção dos outros de sua alma em ruínas, pois tem verdadeiro pavor de que reconheçam seus defeitos. É grande entusiasta da cultura da imagem e investe nela para se autopromover, mesmo quando se sente perdida, deprimida, inadequada e insatisfeita por dentro, pois necessita de admiração e aprovação externas para se sentir inteira.

Provoca discussões e brigas: por estar constantemente insatisfeita, seja consigo mesma, com o que faz ou com os outros, a mãe narcisista está sempre provocando desentendimentos desnecessários para aliviar seu turbilhão emocional interno. Por ser incapaz de se centrar emocionalmente, lida com a raiva, por exemplo, descontando-a nos outros. Raramente opta pelo diálogo e o entendimento, mas mantém uma atitude intransigente e inflexível, propensa a perpetuar a discórdia e a desavença. Sua tendência comportamental ao se sentir inadequada consiste em extravasar sentimentos antagônicos até que todos a sua volta se tornem tão infelizes ou, preferivelmente, mais infelizes do que ela, para que, finalmente, sinta-se “em paz” consigo mesma.

Não admite responsabilidade: enquanto tudo que é bom na vida da mãe narcisista corresponde ao resultado direto de seus talentos e charme inquestionáveis, nada que seja ruim acontece por responsabilidade dela. Como é intolerante e não aceita erros, está sempre à procura de bodes expiatórios para carregar o ônus de suas falhas. Se não consegue corresponder a suas próprias expectativas perfeccionistas, idealistas e irracionais, arranja alguém para culpar por sua suposta falta de sorte.

Não admite culpabilidade: mesmo quando arruinando relacionamentos por meio de sua atitude antagônica e intransigente, ou com seus humores insuportáveis e exigências descabidas, a mãe narcisista nunca admite causar mal algum a quem quer que seja. Se sua família é disfuncional e seus relacionamentos marcados pelo abuso, brigas e desentendimentos, “certamente” não é por causa da influência maligna e egoísta dela.

Não pede desculpas: por ser a dona da verdade e acreditar que nada do que acontece de forma ruim é culpa sua, a mãe narcisista nunca admite quando trata os outros de maneira imprópria. Mesmo quando tem plena ciência de seu comportamento abusivo, não pede desculpas quando magoa quem quer que seja.

Não cumpre com o que promete: o que o(a) narcisista diz não se escreve. Como é manipulador(a), egoísta e desonesto(a), diz o que os outros querem ouvir somente com o intuito de se autopreservar. Apesar de não ter intenção alguma de se sacrificar pelo próximo, a mãe narcisista faz promessas que nunca se tornam realidade e, quando lembrada delas, nega tê-las feito com a maior cara de pau.

Monopoliza recursos financeiros: a mãe narcisista, ao lidar com bens que não pertençam exclusivamente a si, como os correspondentes à família, age como se fossem somente seus, recusando acesso ou participação nas decisões referentes a gastos e investimentos e, muitas vezes, apropriando-se totalmente dos recursos disponíveis.

Normaliza o sofrimento alheio: a vida do(a) narcisista é um grande drama. Ninguém sofre tanto quanto a sua mãe narcisista, que trata eventos negativos de sua vida como acontecimentos inéditos do catálogo Homo sapiens. Por ter zero empatia, no entanto, reage de forma blasé diante da agonia alheia. A discrepância é tão gritante, que como filha de mãe narcisista a pessoa questiona a própria sanidade mental e o mérito de sua miséria pessoal, como se não fosse digna de seus próprios sentimentos.

É incongruente: a ética, a moral e os valores do(a) narcisista são alardeados fervorosamente através de frases de impacto e comentários repletos de indignação àqueles que não os respeitam. Na prática, contanto, sua atitude é inconsistente, frequentemente divergindo ou descordando completamente de seus argumentos ou dos princípios que alega manter.

Tem opiniões extremas: como a percepção do(a) narcisista é baseada em crenças tendenciosas, irracionais e perfeccionistas, vê o mundo em preto e branco. A mãe narcisista julga a tudo e a todos de maneira exagerada e infantil. Seus gostos e preferências, embora baseados exclusivamente em motivações subjetivas e de caráter inconsistente e passageiro, são mantidos como correspondentes universais dos padrões mais altos de qualidade. Quando diz gostar de algo ou alguém, é devido a sua superioridade irrefutável. Se demonstra desaprovação, é pelo fato de que o objeto de seu desdém é, em sua totalidade e independente de perspectiva de avaliação, completamente inaceitável. Medida é um conceito que a mãe narcisista pode até entender em teoria, mas está longe de saber aplicá-lo na prática.

É deslumbrada: com valores superficiais e mania de grandeza, a mãe narcisista se vê facilmente encantada com o que seja caro, belo ou sofisticado. A beleza e a condição financeira privilegiada, de acordo com a atitude e mentalidade narcisistas, perdoa – e até mesmo erradica – qualquer atributo negativo de peso. Como não há nada de mais sedutor para a mãe narcisista do que ser elogiada, invejada e cobiçada, faz de seu objetivo se associar com objetos e pessoas que reflitam um status social elevado.

É egoísta: tudo o que é da mãe narcisista é para uso exclusivo seu. Mesmo que tenha o hábito de abusar das posses assim como da boa vontade dos outros, não compartilha de nada, principalmente dinheiro. A mãe narcisista nunca empresta ou dá dinheiro a ninguém, nem mesmo a parente próximo, parceiro amoroso ou amigo. Também sempre tem uma desculpa ou justificativa na ponta de sua língua para se esquivar de ter de ajudar os outros, seja essa ajuda de natureza física, psicológica, emocional ou monetária, enquanto desfruta do apoio e dedicação daqueles que ainda se encontram sob sua influência.

É egocêntrica (característica marcante do perfil da mãe narcisista): tudo que ocorre na vida da mãe narcisista, assim como na de quem depende ou convive diretamente com ela, gira ao redor de suas necessidades e perspectivas. Planos e decisões de família são fundamentados nas suas opiniões e vontades, pois somente os interesses e sentimentos dela tem validade. Como precisa da aprovação dos outros para se sentir segura de si mesma, quando seu ego não é servido, sente-se rejeitada ou desvalorizada.

Vergonha: narcisistas não aceitam defeitos ou fraquezas, sejam em si mesmos ou nas outras pessoas, sentem-se facilmente dominados pela vergonha. Como acreditam que a autoestima só é possível através de elogios, reconhecimento e admiração, frequentemente se sentem humilhados e diminuídos, sobretudo quando perante o risco de suas vulnerabilidades serem expostas. Como se recusam a explorar o efeito de seus sentimentos, baseiam seus comportamentos de maneira a proteger sua autoestima frágil a todo custo, independente das consequências a seus relacionamentos.

Lavagem cerebral: o que se recebe de uma mãe narcisista não é educação, mas uma lavagem cerebral. Para “aceitar” a atitude e o comportamento incongruente, irracional e intolerante do(a) narcisista, somente sob intensa e prolongada pressão. A mãe narcisista convence durante anos de persuasão e adestramento daqueles que se submetem – voluntariamente ou não – a seu controle e influência. Condiciona seus filhos(as) e parceiros amorosos a acreditarem em suas mentiras e no suposto mérito de seu comportamento abusivo com tanta persistência e determinação que, mesmo depois de morta ou de ser cortada de suas vidas, suas palavras continuam a reverberar nos ouvidos de suas vítimas.

Pratica bullying: o bullying – ou a intimidação por parte de agressão verbal ou física – é uma das táticas de abuso narcisista mais eficientes. A mãe narcisista vive fazendo comentários desagradáveis disfarçados de conselhos de mãe dedicada para envergonhar e humilhar a filha. Por se ressentir de sua jovialidade e liberdade, ou de tudo aquilo que lhe concede vantagem ou favorecimento em face dela, reage de maneira amarga e vingativa quando se sente ameaçada. Mesmo sem razão aparente para agir de forma melindrada e rancorosa, provoca brigas, dando ferroadas gratuitas para acabar com o bom humor e a joie de vivre de quem inveja.

Exibe comportamento infantil: narcisistas não evoluem com a passagem do tempo, por isso, seguidamente se comportam como crianças teimosas ou adolescentes inseguros. Em vez de defenderem seus argumentos de forma racional, adulta e centrada, usam da intimidação, de discussões, brigas e chantagens emocionais para convencer os outros a servirem seus interesses, desejos e vontades.

Tem um senso de direito dilatado: o(a) narcisista, por julgar-se especial, faz uso de títulos como “pai”, “mãe”, “chefe”, “marido”, “esposa” etc., para exercer influência direta sobre os outros, bem como pela imposição de suas opiniões próprias e de bullying. Os direitos da mãe narcisistas vão além da tutela. Acredita ser dona não somente da aparência de sua filha, mas de seu comportamento, atitude e escolhas pessoais. Tem o hábito de rejeitar a identidade, individualidade e autonomia desta como se fossem totalmente descartáveis, ou não tivessem valor real algum.

Não respeita limites pessoais (característica marcante do perfil da mãe narcisista): a mãe narcisista não registra o “não”. Está sempre ignorando a vontade dos outros ou os compelindo a seguir o que ela deseja. Recusa-se a reconhecer os direitos dos outros, como se nada fosse mais importante do que seus próprios problemas, planos e desejos. Como resultado, trata a filha como acessório ou criança rebelde quando esta tenta impor seus próprios limites.

Foge da verdade: a verdade, para os(as) narcisistas, é cruel. Por viver mascarando suas próprias vulnerabilidades a fim de emanar uma aparência de permanente superioridade e perfeição, evita avaliar sua condição de forma genuína “como o diabo foge da cruz”. Quando se sente acuada por perguntas e observações que visam analisar a razão por trás de tantas desavenças familiares e problemas de relacionamento, a mãe narcisista se isenta de toda e qualquer culpa ou remove a atenção de seu próprio comportamento, ou se recusa a considerar argumentos e sem dar satisfações, pura e simplesmente.

Negligência emocional: a mãe narcisista ignora conscientemente os sentimentos dos outros por total falta de interesse. Como somente o que sente merece consideração, reage de maneira fria e indiferente ao sofrimento ou alegria alheios. Não reconhece que as outras pessoas também passam por momentos difíceis e chega a incentivar que se reprimam sentimentos antagônicos para não ter de se sacrificar pelo próximo. Da mesma forma, não demonstra entusiasmo algum pela felicidade dos outros em momentos de celebração, pois quando a atenção está voltada para fora de si mesma o evento perde totalmente a utilidade.

Sofre de depressão (característica marcante do perfil da mãe narcisista): mesmo quando emanando uma aura de superioridade e controle por fora, por dentro o(a) narcisista carrega uma ferida aberta em sua autoestima. Tudo o que diz respeito à verdadeira face do(a) narcisista o(a) coloca como grande candidato(a) à depressão, como sua tendência à autocritica e ao autodesprezo, assim como sua permanente recusa de lidar com sentimentos antagônicos de forma saudável e eficiente. Além disso, sua incapacidade de amar e tratar a si mesmo com complacência perpetua sentimentos de autorrejeição. Como nega suas próprias vulnerabilidades ou a existência de problemas de ordem psicológica e emocional, vive uma vida marcada pela insatisfação. Quando seu descontentamento se torna generalizado e afeta seus relacionamentos de forma dramática e, muitas vezes, irreparável, finalmente se vê tomado(a) por um episódio depressivo.

Mente descaradamente: para que consiga se manter como o centro das atenções e fazer somente o que quer, o(a) narcisista mente, sem vergonha nenhuma. Mente para se esquivar de responsabilidades, para se proteger e se autopreservar. A mãe narcisista usa da mentira principalmente para perpetuar o abuso emocional e psicológico, como o de sua filha. Nega ataques verbais e demais atitudes e comportamentos impróprios como se fossem produto de uma imaginação fértil.

Vive se comparando com os outros: porque o amor-próprio de mentira do(a) narcisista é mantido de fora para dentro, precisa de estímulos externos negativos para se sentir bem consigo mesmo(a). Para manter a “autoestima”, a mãe narcisista está sempre à procura de alguém mais acima do peso, mal-apessoado, pobre, velho, desarrumado ou infeliz do que ela. Tem verdadeira paixão em alardear seus supostos atributos e vive ostentado sua superioridade quando a chance aparece.

Negligência afetiva: a mãe narcisista não é nem um pouco carinhosa. Por ter zero empatia, raramente trata a filha de forma afetuosa quando esta se sente triste ou descontente. Não gosta de intimidade e da aproximação física ou emocional, mas insiste em manter uma certa distância ou “ser deixada em paz”, para se concentrar exclusivamente no que considera de fato relevante: suas próprias vontades.

Dá presentes esquisitos: receber presentes de uma mãe narcisista é uma atividade surreal. Como não reconhece a individualidade, tampouco demonstra o mínimo de interesse nos outros, a sua percepção dos gostos e preferências da filha é completamente desconectada da realidade. A mãe narcisista compra presentes para a filha pensando em si mesma ou na imagem destorcida que mantém desta em sua mente. Como resultado, seus presentes são comumente do tamanho, estilo ou cor erradas, ou não correspondem de forma alguma a algo que a filha desejaria para si.

Flutuação de humor: narcisistas são facilmente influenciados por sentimentos antagônicos. Como quase tudo tem o potencial de afetar a mãe narcisista de forma negativa, um minuto está super para cima e no outro, lá embaixo. Por não saber trabalhar suas emoções de forma adulta e madura, está sempre extravasando a insatisfação nos outros para não implodir.

É invejosa (característica marcante do perfil da mãe narcisista): como o(a) narcisista está sempre se comparando com os outros para se sentir bem a respeito de si mesmo(a), morre de raiva quando se destacam mais do que ele(a), principalmente quando se identifica com o que os projeta para o topo do pódio, como beleza, melhora de condição financeira e popularidade. A mãe narcisista tem inveja até da própria filha e não tolera quando esta recebe mais atenção do que ela, ou quando se torna mais bem-sucedida. Na eventualidade de se sentir ameaçada por ela, reage com sua língua venenosa e não perde tempo em desmoralizá-la, seja indiretamente através da agressividade passiva ou com ataques abertos de crítica destrutiva gratuita.

É interesseira: quando o(a) narcisista precisa de alguma coisa, trata os outros de maneira atípica, isto é, com consideração e respeito. Quando a mãe narcisista quer que a filha empreste ou faça algo para ela, é carinhosa a afetuosa, come se estivesse tomada por um espírito benevolente. Também demonstra curiosidade e atenção inéditos em relação à filha quando reconhece uma oportunidade de autobenefício, como quando esta se encontra envolvida com pessoas de status econômico privilegiado.

Sabota a felicidade alheia: a mãe narcisista vive minando o entusiasmo e alegria dos outros, pois não tolera não ser o centro das atenções. Como é invejosa, também não atura ver a alegria e o entusiasmo da filha pela vida quando nunca está satisfeita com quem é e com o que tem. Para que não seja relembrada de sua miséria pessoal, acaba com a animação das outras pessoas as nivelando ao seu patamar. Quando em companhia da mãe narcisista, sempre ao lado ou inferior a ela, nunca acima.

Guarda rancor: quando você magoa o(a) narcisista, esse “erro” fica registrado em sua memória. A mãe narcisista não deixa nenhum deslize passar em branco, inclusive mantém um banco de dados das falhas de comportamento daqueles com quem se relaciona. Cada vez que a filha se recusa a atender suas vontades ou a acusa de agir de forma imprópria, ela acessa a memória para exemplos passados de “mau comportamento” e fornece uma longa lista das inúmeras vezes em que a filha a desapontou. Come seu objetivo é provar que está sempre certa, usa de todo o seu poder cognitivo para assegurar seus argumentos. Por outro lado, tem uma memória fraquíssima referente aos sucessos, conquistas e qualidades dos outros, principalmente quando são pessoas pelas quais se sente ameaçada, como a própria filha.

Tem problemas de intimidade (característica marcante do perfil da mãe narcisista): como o(a) narcisista é intolerante e se recusa a aceitar a própria humanidade, cria uma barreira entre seus sentimentos e quem realmente é. Está sempre agindo em total dissonância com o que pensa e sente, comportando-se de forma falsa e pretensiosa, mascarando suas verdadeiras emoções. Essa tendência à autorrejeição pessoal e emocional torna impossível criar uma conexão genuína e saudável consigo mesmo(a) ou com as outras pessoas, seja o relacionamento da natureza que for.

Se odeia: o maior mito a respeito dos narcisistas é de que “se amam” de forma exagerada. A realidade é o inverso disso. O(a) narcisista é incapaz de se aceitar e chega até a nutrir um ódio profundo contra si por não ser capaz de corresponder, de todas as formas e em todas as circunstâncias, à imagem idealizada de perfeição e sucesso absoluto que se esmera tanto em reproduzir.

Tem problemas de relacionamento no trabalho: ter um colega, ou o que é pior, um(a) chefe narcisista resulta em um verdadeiro pesadelo. Como é arrogante na décima potência, trata os outros como se lhe fossem inferiores enquanto se recusa a aceitar qualquer tipo de responsabilidade tanto por desentendimentos como quando algo com que esteja envolvido não dá certo.  É um péssimo colega, pois não tem nenhum espírito de equipe. Como chefe é explorador, insensível, nunca dá crédito ao trabalho de ninguém e até rouba as ideias dos outros, além de tratar empregados como serviçais. A mãe narcisista está sempre reclamando de um ou outro problema no trabalho, visto que ninguém consegue aturá-la.

Tem problemas de relacionamento amoroso: relacionamento amoroso com narcisista é uma das maiores decepções na vida de alguém. Como são mestres do disfarce e possuem dotes artísticos de primeira classe, escondem-se atrás de uma cortina de fumaça de aparente perfeição. O charme e a suposta autoconfiança do(a) narcisista são, em princípio, atraentes, mas quando a máscara cai, ou seja, quando o(a) narcisista consegue o que quer (o outro), ele(a) revela a pessoa manipulativa e egoísta que realmente é. Por essa razão, relacionamentos com narcisistas tendem a não se estender por muito tempo, ou se duram é porque seus parceiros se anulam completamente para preservar a união, provavelmente por serem tão inseguros e de autoestima tão frágil quanto as do narcisista. A rotação de parceiros amorosos da mãe narcisista é normalmente numerosa. Quando consegue manter um relacionamento por um período razoavelmente prolongado é graças ao perfil psicológico e emocional de seu parceiro, que pela razão que seja, concorda em abdicar de sua individualidade para servir ao ego gigantesco da narcisista.

É agressiva passiva (característica mais marcante do perfil da mãe narcisista): a mãe narcisista usa de comentários indiretos maliciosos, como a ironia e o sarcasmo, para destilar seu veneno. Seu discurso é repleto de significados duplos intencionados a desmoralizar e desarmar a filha ao mesmo tempo. É uma de suas ferramentas de abuso psicológico mais eficientes, pois mascara suas verdadeiras motivações malignas com sofisticação.

Leva tudo pessoalmente: por ser incapaz de refletir objetivamente sobre si mesmo(a) e se identificar como entidade independente, o(a) narcisista julga a tudo e a todos em relação a si mesmo. É muito difícil fazer a mãe narcisista entender que o mundo não gira em torno dela, mas que contém indivíduos que possuem livre-arbítrio e visões de mundo próprias. Não aceita crítica, pois discordar com ela é rejeitá-la e considera a autonomia de pensamento como uma ofensa pessoal.

Não tem escrúpulo: a mãe narcisista mente descaradamente, explora a boa vontade dos outros enquanto abusa psicologicamente sem pensar duas vezes. Quando confrontada, não exibe consciência alguma ou remorso genuíno pela sua atitude, tampouco admite culpabilidade, mas usa das táticas mais baixas para reiterar a sua posição de superioridade, como através da manipulação e chantagem emocionais.

Abusa de entorpecentes: por se recusar a lidar com seus problemas psicológicos e emocionais de forma aberta e honesta, o(a) narcisista seguidamente se automedica com o álcool e as drogas. Como tem o hábito de negar ter qualquer tipo de problema, opta pelo escapismo com a finalidade de proporcionar um alívio rápido e imediato ao seu caos interno.

Exibe momentos de lucidez: como a mãe narcisista é humana e não uma máquina, não é ininterruptamente insuportável, mas passa por momentos de “lucidez” em que consegue, de modo breve, conter sua atitude abusiva. Esses momentos de relativa paz e harmonia, no entanto, são – infelizmente – exceção. A norma narcisista é o oposto disso. A triste realidade é que estes curtos intervalos de aparente calmaria doméstica são seguidos de longos períodos de tristeza e conflito.

É vingativa: quem contraria o narcisista, paga. Paga com sua reputação e também com seus relacionamentos, pois o(a) narcisista não tolera ser questionado(a), esquecido(a) ou abandonado(a). A filha de mãe narcisista, que “se atreve” a recusar o papel de atriz coadjuvante e acessório da própria mãe, acaba tendo de lidar com as consequências de uma campanha maliciosa contra seu nome. Por ser dissimulada e possuir dotes artísticos de primeira qualidade, se ignorada pela filha, coloca a máscara de mãe-coitada e usa de todos os recursos disponíveis para denegrir a sua imagem. Protegida pela instituição “Mãe” e com a ajuda de chavões do tipo “Eu fiz o melhor que eu pude”, projeta uma imagem de mártir para convencer a todos de suas supostas boas intenções e total inocência.

“Otimismo trágico”, a ferramenta psicológica criada para tempos difíceis

Esse termo, cunhado pelo psiquiatra Viktor Frankl, refere-se à capacidade de escolher nossa reação a acontecimentos negativos. Seu discípulo, o filósofo Alexander Batthyány, explica isso para ‘Ideias’

Faz pouco tempo fui entrevistado por um importante jornal austríaco. O jornalista claramente esperava que eu, na condição de diretor do Instituto Viktor Frankl de Viena e titular da cátedra Viktor Frankl em Liechtenstein e Budapeste, transmitisse uma mensagem positiva; e mais ainda, percebi que tudo o que realmente queria era a confirmação de que o “pensamento positivo” era o mais necessário e o que iria solucionar tudo. Ele me pediu conselhos para lidar com a crise da covid-19 e suas repercussões em nossa vida pessoal, social e econômica: “Como podemos manter uma mentalidade e um pensamento positivos?”. Ficou surpreso quando eu lhe disse que em tal situação ― e na vida em geral― acredito (e as pesquisas corroboram isso) que existe algo muito mais útil e maduro do que o pensamento positivo: o pensamento realista. “Mas isso não é o mesmo que ser negativo e resignar-se com a situação atual?”, insistiu. Boa pergunta. A resposta é sim e não. E um “não” em que podemos depositar nossas esperanças.

Viktor Frankl, o famoso psiquiatra vienense que sobreviveu a quatro campos de concentração e mais tarde fundou a psicoterapia centrada na vontade de sentido (denominada logoterapia e análise existencial), cunhou um termo muito interessante: otimismo trágico. Que, em suma, significa a mesma coisa que o “sim e não” que mencionei. Numerosas pesquisas em psicologia demonstram que se trata de um conceito muito útil, sobretudo em tempos difíceis, porque nos permite ver com clareza e aceitar o que é ruim, mas também estar cientes de que podemos decidir como reagir a tudo o que acontece, seja o que for. Vamos ver como traduzir esses estudos para nossa vida cotidiana atual.

A primeira conclusão é que podemos decidir em certas condições. É claro que o coronavírus nos coloca diante de uma crise imensa que não vai desaparecer com pensamentos positivos. Sejamos realistas e reconheçamos isso. Mas uma avaliação realista não para aí. Busca também as coisas que podemos mudar. Examina nossa liberdade para decidir como reagir a uma situação. Até que ponto isso depende de nós? Como decidimos enfrentar a crise?

Um dia, tudo o que está acontecendo será história, tanto coletiva como individual. O que então pensaremos desta história e o que as gerações futuras dirão, não apenas sobre a pandemia, mas sobre nosso comportamento? Seremos um modelo para essas gerações? Isso é o que podemos e devemos decidir hoje, agora, todos e cada um de nós, como coletivo e como indivíduos. Quando olhar para trás, poderei reconhecer com gratidão que, sim, foi um período difícil, mas pelo menos fiz o melhor uso possível dele? Ou poderei dizer que fiz da minha casa ― seja grande ou pequena ― um lugar aconchegante e acolhedor para todos os que nela vivem ou a visitam, o nosso nicho pessoal neste mundo imenso? Que ajudei meus parentes e vizinhos mais velhos? Que aproveitei este período de isolamento involuntário para organizar meus papéis ou outras áreas que precisam de atenção? Ou para passar um tempo precioso com minha família, telefonar ou escrever para amigos e parentes que estão sozinhos, talvez até para aprender um idioma ou uma nova habilidade? Ou terei que admitir que não me interessei por nada e desperdicei esta pausa inesperada?

A segunda conclusão é que você deve estruturar cada dia e administrá-lo independentemente dos demais. Passo a passo. Decisão por decisão. Tarefa por tarefa. Os tempos de crise não são o momento ideal para empreender grandes projetos novos e ambiciosos. Gerenciar cada dia e cada semana já é um grande triunfo. Como não poderia ser? A vida corre aqui e agora, diante de nossos olhos. Temos que começar pela vida cotidiana, e como não poderia ser assim? Arrumar a casa. Literal e metaforicamente.

A terceira é que teremos que fazer o que for necessário, mas de maneira diferente. Compartilhar as responsabilidades e os cuidados. O trabalho em equipe é o melhor construtor da paz. Em outras palavras, dar a cada membro da família a responsabilidade de cumprir suas obrigações diárias, como cozinhar para si mesmo, para a família ou para os filhos. Mas, a partir de agora, tentar fazer isso com um pouco mais de atenção, de amor, de dedicação. Se temos que fazer mesmo, por que não transformar as coisas com a forma como as fazemos? Principalmente agora que muitas pessoas estão confinadas em uma mesma casa, o clima desse pequeno mundo depende de cada uma delas.

Quarta: devemos preencher nossa casa e a nós mesmos com bondade. Todos nós sabemos, conhecemos pessoas que irradiam calor e bondade e outras que não, embora, à primeira vista, pareça que todas fazem o mesmo. E os estudos nos mostram que a bondade e a atenção são contagiantes. Vamos nos enfeitar com a bondade, a atenção, a compreensão e a responsabilidade.

Isto vale também para as pessoas que vivem sozinhas; talvez até mais, porque uma coisa é se alimentar fisicamente, sem mais, e outra, muito diferente, que sejam boas consigo mesmas, que se cuidem e se respeitem. Vamos manter a ordem. Sejamos gentis com nós mesmos e com os outros. Quer vivamos sozinhos ou façamos parte de uma grande família, que outro momento é mais apropriado do que este para ser nossa melhor e mais bondosa versão?

Assim, além do mais, seremos grandes exemplos para nossos filhos, que aprenderão muito mais coisas do que na escola: em especial que, aconteça o que acontecer, continuamos com grande liberdade para decidir como reagir em tempos de crise. Se eles aprenderem essa lição, teremos todos muitos motivos para confiar em que o mundo pós-covid-19 terá uma nova geração capaz de reconstruir um mundo abalado pela crise.

Este é um texto escrito para ‘Ideias’ pelo filósofo e psicólogo Alexander Batthyány (Viena, 1971), logo após a publicação de seu último livro, “La Superación de la Indiferencia. El Sentido de la Vida en Tiempos de Cambio, publicado na Espanha pela editora Herder.

Não se identifique com seus pensamentos negativos

Os pensamentos invadem a nossa mente a todo momento, e é praticamente impossível esvaziar, somente a partir das técnicas de meditação é que conseguimos experimentar um pouco desse descanso mental.

Quando acordamos pela manhã já somos chocalhados por milhares de pensamentos que nos fazem levantar e começar a realizar as tarefas do dia. Quando temos uma postura mais positiva conseguimos ter uma vida tranquila, julgamos menos, temos mais empatia pelas pessoas, conseguimos identificar o que a vida ou as experiências nos trazem de bom.

Mas nem todas as pessoas são positivas, isso se deve ao conjunto de experiências a que foram expostas desde pequenas e como conseguiram lidar com as mesmas. Talvez tenham aprendido a enxergarem a vida com lentes cinzas ao invés de coloridas, pois a vida pode ser um tanto desafiadora para algumas pessoas.

A partir dessas referências os pensamentos se manifestam e temos a tendência a nos identificarmos com os mesmos, e estes se tornam verdades nas quais interferem diretamente em nossas ações. Esse processo é muito delicado pois interpretamos os fatos a nossa volta de acordo com as nossas lentes e assim cada pessoa o faz, aí já começamos a entender o porque de tantos conflitos entre as pessoas.

Quando fazemos a prática do silêncio ou meditação, vamos conseguindo identificar que não somos os nossos pensamentos, que é o nosso ego que necessita se identificar para continuar existindo. O ego nos proporciona uma identidade ilusória, ele se constituiu através de pensamentos, emoções e lembranças vivenciadas, pois somente dessa forma ele sobrevive.

Desta forma, quando escolhemos praticar o silêncio vamos entendendo que os pensamentos não nos definem, então podemos sim escolher com quais iremos nos identificar, pois facilmente os transformamos em verdades, por isso é tão delicado esse processo.

Esse é um assunto bem complexo para aprofundar em outro momento, mas foi somente uma pincelada para ficar claro como funcionamos, o quanto nos apegamos a ideias mentais.

Então o meu convite é para que você teste a prática do silêncio, pois a partir daí irá começar a entender melhor como todo esse processo funciona e assim escolher quais pensamentos irá querer nutrir em sua vida.

Imagine que você é o céu, acima das nuvens, então é bem azul. Quando olha para baixo você percebe várias nuvens passando, elas são os seus pensamentos, e podem ser bons ou maus. Então você olha para os mesmos e pode escolher deixar passar o pensamento ruim, negativo, e se apegar nos pensamentos bons que irão trazer tranquilidade e harmonia em sua vida.

Parece simples, mas não é, pois irá demandar de você um exercício diário. Tenho dito que o mais simples pode ser o mais desafiador, pois irá exigir de você comprometimento, e se não fizer isso por você, ninguém o fará.

Como identificar os pensamentos negativos automáticos?

Recentemente encontrei através das redes sociais uma imagem que me encantou e me fez pensar sobre os pensamentos negativos automáticos. Era uma foto antiga de uma mulher que tinha um pôster no rosto dizendo “não acredite em tudo o que você pensa” … Espere um momento! O que isso quer dizer? Por que eu deveria duvidar dos meus próprios pensamentos?

Aqui está o centro da questão. Nunca nos ensinaram isso. Na escola, nos explicaram muitas coisas sobre o mundo exterior, mas poucas ou nenhuma sobre o interior.

Se algo nos vem à mente, e volta, e volta… no final acaba adquirindo alguma conotação de realidade para nós. O problema é que muitas vezes isso não tem nada de real, então nos gera um desconforto emocional desnecessário. Combater isso com inteligência é aprender a identificar os pensamentos negativos automáticos que aparecem. Desta forma, podemos mais tarde questioná-los e mudá-los… Aprenda a dominar seus pensamentos para recuperar seu bem-estar!

“O trabalho do pensamento se assemelha à perfuração de um poço: a água é turva a princípio, mas depois fica clara”.
Provérbio chinês

O que são os pensamentos negativos automáticos?

A realidade é que nossos pensamentos, esse diálogo interno que temos com nós mesmos, condicionam a maneira como nos sentimos e influenciam a maneira como agimos. Nossa avaliação da situação influencia como a interpretamos e faz com que a vivamos de uma forma ou de outra a um nível emocional.

Por isso, é necessário aprender a identificar pensamentos negativos automáticos. Ou seja, aqueles que não se ajustam à situação e provocam emoções muito intensas, duradouras e/ou recorrentes em relação ao que realmente está acontecendo conosco. Esses tipos de cognições estão relacionadas a outras que já expomos em outros artigos e que influenciam o mal-estar emocional: as crenças irracionais e os vieses cognitivos.

“Não há nada bom ou ruim; é o pensamento humano que faz parecer assim “.
-William Shakespeare-

Os pensamentos distorcidos (ou negativos automáticos) são próprios de cada um, e o conteúdo varia de um assunto para outro. Ou seja, são específicos de cada pessoa. Além disso, são discretos e espontâneos: aparecem sem percebermos e é difícil identificá-los como uma ameaça quando aparecem pela primeira vez. Finalmente, acreditamos neles sem submetê-los a julgamento e geralmente os vemos como obrigações (em relação a nós mesmos ou em relação aos outros).

Tipos de pensamentos negativos automáticos

Agora que sabemos o que são, para aprender a identificar os pensamentos negativos automáticos é necessário conhecer as diferentes formas que eles assumem. A realidade é que todos nós os geramos, em maior ou menor grau. Além disso, como já foi explicado, não podemos controlar seu início, então vamos trabalhar tentando questioná-los e mudá-los.

Para isso, temos que localizá-los o mais rápido possível. Não é fácil, mas é possível. A ideia é aprender a equilibrar o que pensamos, a tomar perspectiva e a duvidar se as coisas são verdadeiras. Ou seja, devemos aprender a ser realistas. Os tipos de pensamentos distorcidos que geralmente temos são:

  • Ampliação ou minimização: dar valor excessivo aos aspectos negativos e subestimar importância do positivo.
  • Pensamento dicotômico: classificar as situações como “tudo ou nada”, “branco ou preto”, “perfeito” ou “desastroso”, etc., em vez de ver que na vida real há mais graus entre os extremos.
  • Inferência arbitrária: tirar conclusões negativas sem ter provas ou com provas contrárias.
  • Generalização excessiva: extrair uma regra geral baseada em incidentes isolados, aplicando o mesmo a situações diferentes da original.
  • Pensamento em adivinhação: pensar que os outros irão reagir negativamente em relação a nós sem ter provas disso.
  • Regras rígidas de comportamento: sentir que nós mesmos ou os demais somos obrigados a fazer certas coisas. Como isso não acontece na realidade, geralmente gera muito desconforto (especialmente em nossas relações interpessoais).
  • Personalização: tendência a relacionar coisas alheias a si mesmo, envolvendo-se de forma excessiva ou inadequada.
  • Raciocínio emocional: acreditar que as coisas são assim porque nos sentimos assim.

“Se as pessoas ouvissem nossos pensamentos, poucos escapariam de serem trancados como loucos”.
-Jacinto Benavente-

Exemplo para identificar pensamentos negativos automáticos

Para entender até onde chega a influência desses pensamentos aparentemente inofensivos, vamos ver um exemplo. Após uma reunião, um colega nos diz: “Gostei de como você se apresentou na reunião, embora parecesse estar um pouco nervoso”. Pode ser que, diante desta situação, pensemos “Oh minha nossa, eu sou o pior, eles vão pensar que eu sou um desastre… Eu sempre faço tudo errado! Tenho certeza de que não vão querer que eu fale mais nas reuniões”.

Aqui vemos um pouco de tudo: ampliação do negativo e minimização do positivo (nem sequer reparamos que ele gostou de como nos apresentamos), pensamento dicotômico (“eu sempre faço tudo errado”, “eu sou o pior”, em vez de ver que no meio há mais graus), inferência arbitrária (“tenho certeza de que não vão querer que eu fale mais”), adivinhação do pensamento (“eles vão pensar que sou um desastre”), etc.

Não é fácil, mas se estivermos comprometidos em identificar os pensamentos negativos automáticos que aparecem, assim como fizemos no exemplo, seremos testemunhas de todo o processo: aquele em que fazemos uma montanha de um grão de areia. Este passo é fundamental para aprender a controlar nossos pensamentos e, consequentemente, nossas emoções.

 

 

A Dependência emocional

O que é a dependência emocional?

A dependência emocional é uma relação de apego afetivo exagerado, que pode acontecer na vida de casal, mas também nas relações familiares ou de amizade. A pessoa simplesmente não consegue ser feliz sozinha. Ela depende dos outros, do que fazem e dizem para se sentir feliz, amada, querida ou realizada.

Essa relação de dependência é problemática e acaba convertendo qualquer relacionamento em algo tóxico. A gravidade dos sintomas varia conforme cada caso, porém, quando muito intensa, acaba desencadeando transtornos psicológicos mais sérios, como depressão, ansiedade ou transtornos de personalidade.

Quais são as causas da dependência emocional?

As causas da dependência emocional estão associadas ao medo de errar e de ser rejeitado, além do temor de ficar sozinho. Podem ter origem numa infância superprotegida ou ser consequência de alguma situação traumática. Isso é projetado na vida adulta, e a pessoa depende dos demais para reconhecer suas virtudes.

Quais são os sintomas da dependência emocional?

Os principais sintomas da dependência emocional podem ser observados em padrões de comportamento que se repetem, nos mais diversos tipos de relação:

  • Exigência de atenção
  • Ciúme exagerado
  • Incapacidade de se sentir bem sozinha/o
  • Dificuldade de tomar decisões sozinha/o
  • Insegurança no relacionamento
  • Inexistência de planos que não envolvam a outra pessoa
  • Tendência a dizer sim a tudo por medo da rejeição
  • Tendência a estar em segundo plano, porque precisa ter a outra pessoa sempre por perto para alimentar a dependência

Quais são os tipos da dependência emocional?

A dependência emocional pode ser dividida em três tipos, em função de onde se instala o vínculo de afeto descomedido. São eles:

  • Dependência emocional no casal: costuma ser o tipo mais comum de dependência emocional, que evidencia insegurança no casal e parte de uma pessoa que se considera sem méritos ou capacidades, necessitando de apoio para sobreviver e seguir adiante. Pelo medo de perder o parceiro e ficar sozinha/o, acaba vivendo a vida do outro e adotando comportamentos nocivos como podem ser o ciúme excessivo e a submissão.
  • Dependência emocional na família: costuma estar ligada a estruturas familiares marcadas pela ansiedade, que acabam sendo repassadas para os filhos. Há carinho e afeto, mas são estruturas que não costumam instigar a autoconfiança. O núcleo familiar é um refúgio e tudo o que está fora dele é visto como uma ameaça.
  • Dependência emocional no meio social: a necessidade de ser valorizado nas relações sociais e de amizade, de ser aceito no grupo, é o que sustenta esse tipo de dependência emocional. A pessoa vai perdendo sua individualidade e passa a reproduzir aquilo que considera que esperam dela, a custo de muito sofrimento emocional e de uma progressiva “invisibilidade”.

Qual é a diferença entre dependência emocional e codependência?

A principal diferença entre a dependência emocional e a codependência é que, no último caso, ela se dá mutuamente. Em um casal, por exemplo, a dependência emocional e os comportamentos nocivos que ela desencadeia se manifesta em ambos. Os envolvidos acabam se sentindo presos à relação, mesmo sem querer.

Como ajudar uma pessoa com dependência emocional?

Para superar a dependência emocional, o primeiro passo é reconhecer que ela existe, que se trata de um problema que precisa ser enfrentado. Por isso, é importante saber abordar o tema com empatia, pois quem é dependente emocional tem a sensação de que não pode viver sem a outra pessoa.

O fundamental é se mostrar como um ponto de apoio equilibrado, em que ela pode confiar e mostrando que existem relacionamentos em que a pessoa pode ser como ela realmente é. Como impera a baixa autoestima, ajuda falar sobre e reafirmar suas potencialidades.

Esclarecer a pessoa que pode ser mais saudável procurar ajuda, para o auxílio, do seu próprio fortalecimento emocional.

Quem pode te ajudar?

Se você se reconhece como dependente emocional, pode contar com o apoio de um psicólogo especializado em desenvolvimento pessoal para rever as bases dos seus atuais relacionamentos, entender em que pontos há desequilíbrio e começar a consolidar as mudanças necessárias.

Como esse tipo de dependência costuma ter raízes profundas, o acompanhamento psicológico ajuda a dinamizar o processo e acompanhar e fortalecer os ganhos adquiridos com o apoio da psicoterapia. Lembre-se de que é recomendável falar sobre as dificuldades que você enfrenta porque permite receber apoio e, inclusive, ver o problema sob uma nova perspectiva. Se você não se sente à vontade para falar sobre o assunto com familiares e amigos, pode desabafar no Fórum do MundoPsicologos.com.

As informações publicadas por MundoPsicologos.com não substituem em nenhum caso a relação entre o paciente e seu psicólogo. MundoPsicologos.com não faz apologia a nenhum tratamento específico, produto comercial ou serviço.

Passos para superar a dependência emocional

A dependência emocional oculta uma necessidade de controle e segurança, manifestada por alguém que não confia em si mesmo. Entenda por que é nociva e quais são os recursos para superá-la.

Quando o seu bem-estar, sua felicidade ou seu equilíbrio emocional depende de outras pessoas ou do que elas façam, é muito possível que você manifeste claros sinais de dependência emocional. Trata-se de uma condição problemática, que te impede de enfrentar as situações do dia a dia como deveria, seja por falta de autoconfiança ou por medo de ficar sozinha/o.

E você? Já se perguntou qual o seu nível de dependência emocional? Faça o teste para averiguar a resposta:

De acordo com os especialistas, a dependência emocional é alimentada pela baixa autoestima e pela insegurança. Como resposta direta, a pessoa busca externamente no outro, seja no relacionamento de casal, na família ou amigos,  a segurança que não tem em si mesma. Fica “viciada” no que essas relações são capazes de proporcionar e chegam a considerar que é impossível viver sem elas. Imagina o sofrimento emocional que isso representa?

Por isso, para conseguir romper com os elos da dependência emocional e superá-la é fundamental começar a entender de onde vem esse apego, que não tem limite. Isso significa reconhecer medos e limitações, mas também aproveitar o processo de reflexão para entender quais são as suas próprias potencialidades, porque todos as temos.

É possível que se descubram feridas emocionais e situações de instabilidade, mas isso permitirá, aos poucos, ir trilhando um caminho mais autossuficiente. O processo é lento e, na maioria dos casos, merece ser acompanhamento por um psicólogo especializado em desenvolvimento pessoal. Entretanto, você pode começar a mudança ser com pequenos ajustes nos seus comportamentos e posturas:

  1. Comece reconhecendo que está dependente: nunca seremos capazes de superar algo que tratamos de negar. O primeiro passo sempre é saber que você se sente dependente emocional e por que existe esse apego desmesurado. Trate de entender o que cada uma dessas relações oferece a você, de positivo e negativo.
  2. Não tenha medo da incerteza: a dependência emocional vem de uma necessidade de controle, porque isso seria sinônimo de segurança. Porém, quando ela se instala, a relação se converte em tóxica. Ter consciência de que o futuro não se controla, de que a única esfera real de influência que temos é sobre nós mesmos (não me sobre os outros), ajuda a encarar o que está por vir com mente mais aberta e com menos medo, já que o incerto não tem porque ser, necessariamente, negativo.
  3. Centre-se mais em você: não se trata de ser uma pessoa egoísta, mas de ter consciência de que o que realmente importa é a sua opinião, o que você pensa sobre você, não a opinião dos demais. E é importante que você trabalhe todos os pontos que ajudam a reforçar a sua identidade pessoal.
  4. Seja capaz de dizer não: faz parte do equilíbrio emocional saber dizer não. Você precisa entender que respeitar o outro não significa abrir mão daquilo que é fundamental para recuperar e manter a sua autonomia emocional. Seja assertiva/o e respeite sua individualidade.
  5. Não viva do passado: o passado ensina e, nesse sentido, é sempre uma referência. Mas isso não quer dizer que você deva estar presa/o a essas experiências, especialmente as negativas. Isso é colocar uma carga no presente totalmente desnecessária. O grande aprendizado consiste em justamente ser capaz de trasladar as lições do passado e aplicá-las ao presente, para fazer melhor, ser melhor e se sentir melhor.
  6. Questione as suas regras: está claro que todas as experiências vividas ajudam a conformar as “regras” e crenças quando se trata de relacionamento, por exemplo. O problema é que essas regras nem sempre são objetivas ou refletem a realidade. Daí a importância de revisá-las constantemente, em função de quem você é no “agora” e de quais são as suas necessidades.
  7. Assuma a responsabilidade das suas emoções: os sentimentos pertencem à pessoa, e é contraproducente querer colocar a culpa dessas manifestações em causas externas; seria assumir uma postura vitimista. Você precisa entender que tem o controle e, exatamente por isso, é responsável por como manifesta suas emoções.

Para superar a dependência emocional é fundamental que você aprenda a estar bem sozinha/o. Saiba que isso é possível! Não deixe de pedir ajuda profissional se precisar de suporte para alcançá-lo.

“O amor não reclama posse, mas dá liberdade”.
-Rabindranath Tagore-